Foto: D.R.

O Dia Internacional da Biodiversidade, 22 de maio, foi aproveitado para dar a conhecer, em Alcanena, o balanço dos quatro anos dos projetos “Life”, pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), na sessão  “À Volta da Biodiversidade”, integrada no Festival da Biodiversidade.

Neste âmbito abordou-se o sucesso do projeto de recuperação do lince-ibérico, animal que já existiu na região cársica de Alcanena. As vias rápidas, como a A23, constituem o grande obstáculo à expansão atual destes animais, reintroduzidos na natureza, recordando-se a morte de lince-ibérico em 2015, perto de Vila Nova da Barquinha.

Estava agendada a presença da Secretária de Estado do Ordenamento do Território e Conservação da Natureza, Célia Ramos, mas o luto nacional pela morte de António Arnaut ditou a sua ausência. A programação, no entanto, manteve-se, neste que foi o último dia do Festival da Biodiversidade – OBSERVACARSO e o Dia Internacional da Biodiversidade.

A sessão deu a conhecer o balanço de quatro anos de projetos de conservação da natureza, que financiaram a recuperação dos habitats naturais nas Berlengas e o esforço de preservação da águia-imperial-ibérica e do lince-ibérico. “Há muito a fazer”, constatou Sofia Castel-Branco do ICNF, considerando que “é preciso reforçar as políticas da biodiversidade” e continuar a envolver as populações. Há financiamento, pelo que é preciso manter o ânimo e a vontade, referiu.

Maria Jesus Fernandes, do ICNF, apresentou de seguida o balanço do projeto “Life Berlengas”, um investimento de 1,4 milhão de euros para restaurar os habitats insulares, controlando-se a população de gaivotas e a expansão da espécie invasora do chorão. Está ainda a realizar-se um trabalho de erradicação do rato preto e do coelho, que não são mamíferos naturais da ilha.

Por outro lado, referiu, tem sido feita uma monitorização dos visitantes, que têm crescido de ano para ano. A responsável apontou a necessidade de medidas de controlo de visitação da ilha, explicando os perigos de concentração de mais de um milhar de pessoas na exígua praia existente.

Equipas dos projetos de conservação da natureza do ICNF, financiadas pelo programa Life, deram a conhecer o balanço dos seus projetos Foto: mediotejo.net

Manuela Nunes, também do ICNF, apresentou por seu lado o projeto de recuperação da águia-imperial-ibérica, uma ave que esteve em risco de extinção e tem recuperado nos últimos 15 anos. Atualmente há 15 casais destas aves em Portugal, que mesmo assim continuam a ser vítimas de perigos como os cabos elétricos e o veneno, para além da caça furtiva e da ausência de coelho bravo. A equipa deste projeto faz o seguimento destas aves em Portugal e Espanha, recriando as rotas das aves sempre que o sinal de GPS colocado nelas desaparece, recuperando os ninhos e tentando prevenir os perigos que ameaçam a espécie.

Mas o tema mais sonante acabaria por ser o do lince-ibérico, com todo o trabalho de recuperação que tem sido realizado em sítios como o Centro de Reprodução de Lince Ibérico em Silves. Deste centro, Rodrigo Serra lembrou que em 2001 existiam apenas 95 animais em Espanha, estando a espécie em perigo crítico de extinção. “Só conservar no campo não era suficiente”, pelo que se avançou para um programa de reprodução em cativeiro, impulsionado por um memorando de entendimento entre Portugal e Espanha.

Desde que o projeto avançou em 2011 que tem tido um sucesso acima do esperado, com uma taxa de sobrevivência na ordem dos 66,5%. A mesma linha de sucesso foi apresentada por Margarida Fernandes, do ICNF, que mostrou um vídeo sobre a reintrodução de lince-ibério no vale do Guadiana, onde os primeiros animais foram libertados em 2015.

O lince-ibérico já existiu um pouco por todo o Portugal, inclusive na região de Alcanena. Face a uma questão do mediotejo.net sobre o regresso desta espécie à zona do Médio Tejo, Sofia Castel-Branco adiantou que não está previsto uma reintrodução forçada como a que tem sido realizada no Alentejo, mas que “se tudo correr bem eles vão chegar às áreas” de onde eram naturais, através da dispersão pelo território.

Já Maria Jesus Fernandes acrescentaria que já houve um lince-ibérico reintroduzido na natureza que chegou à região do Médio Tejo (em 2015 vindo de Espanha). “Mas as vias, as fragmentações do território, causam dificuldades de implementação”, constatou. O lince-ibérico em causa morreu na A23, perto de Vila Nova da Barquinha.

A encerrar a sessão, a presidente da Câmara de Alcanena, Fernanda Asseiceira, comentou que chegou a equacionar uma candidatura ao programa “Life”, mas que na altura lhe disseram que seria muito difícil. “Vou voltar a insistir”, afirmou, no objetivo de conseguir financiamento para valorizar e preservar o rio Alviela.

A presidente comentaria que apesar do património natural existente no concelho, a atividade económica envolvente tem causado problemas no que toca à poluição. Lamentaria assim que, à semelhança de outros municípios, a praia fluvial dos Olhos de Água não possa ter ainda uma Bandeira Azul.

A sessão terminou com um minuto de silêncio pela morte de António Arnaut.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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