Biblioteca organizou um convívio entre idosos e crianças para discutir o tema do Namoro Foto: mediotejo.net

Mudou a corte, liberalizou-se o toque, em alguns casos aceleraram-se os processos, noutros ficaram mais demorados. Mas em termos práticos, em mais de um século, apenas se tornou público o que antes se fazia em privado ou às escondias dos progenitores. No namoro permanecem os medos e inseguranças, as cartas de amor, as rosas, as traições. Numa conversa entre idosos e crianças na Biblioteca de Alcanena na sexta-feira, 14 de fevereiro, Dia dos Namorados, também se falou em violência no namoro. Sabe-se que é crime, mas explicar o que é torna-se mais complicado…

As histórias começam pelos mais velhos. Lisete conta a memória dos próprios avós. Ele morava em Fátima e gostava de dançar. Ia então bater à janela da futura esposa para dar uma “perninha” de dança noite dentro. Um dia ficaram no bailarico até de madrugada. “Quando a minha avó chegou a casa, o meu bisavô deu-lhe uma surra”, conta Lisete.

Antigamente o namoro fazia-se à janela ou em episódios semelhantes, às escondidas. Nem toda a gente tem à vontade para os recordar. Mais corajosa, uma senhora admite rapidamente, praticamente sem pormenores: “Nunca namorei. Apanharam-me com um homem e pronto”. Dona Emília é mais desembaraçada: “namorava todos os dias”, quase sempre à janela. O senhor Augusto admite: “roubei-lhe um beijo junto à sapataria”. A esposa acrescenta que foi muito tempo antes de se casarem e que não estava propriamente à espera do atrevimento. Alguém se recorda das chamadas “madrinhas de guerra”, mas não parece estar presente ninguém que tenha precisado ou tenha sido uma.

O encontro entre os utentes da ARPICA – Associação de Reformados e Pensionista e Idosos do concelho de Alcanena e os jovens que encontram-se em ATL na associação ABC dura pouco mais de 30 minutos e é feito de histórias entre-cortadas. O jovem Tiago afirma que já teve quem lhe dissesse “gosto de ti”, para logo a seguir descobrir que a moça tinha namorado. Há um jovem que troca cartas com uma menina a viver noutro país, uma “paixão”, afirmam as educadoras presentes, que nasceu no ATL.

No calor da discussão alguém pergunta pela violência no namoro. Conhecem casos? “Sem ser pela televisão, não”, afirma-se; “Nas telenovelas está lá o número”, observa-se.

João, 11 anos, refere que ainda naquele dia escreveu um texto sobre o tema na escola. Pouco depois explica ao mediotejo.net que a violência no namoro é crime, pode ser feita tanto por homens como por mulheres, mas já não se lembra bem do que escreveu sobre o assunto.

Feito o balanço final, se calhar o namoro não mudou assim tanto como isso. Continua a suscitar embaraço, nem toda a gente se sente à vontade a falar sobre ele, o conceito de amor é um tanto subjetivo e a violência algo que acontece, mas não se sabe bem como.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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