António Lúcio Vieira na livraria alfarrabista "d'outro tempo", em Torres Novas. Foto arquivo: mediotejo.net

Lembras-te Lúcio? Lembras-te do dia em que morreu o poeta?

O Herberto partira e deixava-nos assim sem saber o que dizer.

Ao teu modo, enviaste-me então um mail, a negrito, como sempre fazes, a mim e a alguns outros dos teus amigos, mais amigos do que eu.

Escrevias assim:

“Não tenho muito jeito para homenagens e começo a esquecer-me como se chora. Mas, pronto, cá vai.
Abraço, Lúcio V.” 

A acompanhar, um poema “do outro mundo”.

Li, reli e pasmei. Respondi-te então: “Ó Lúcio, você tem de publicar isso, homem!”

No dia seguinte, entraste pela livraria, fitaste-me nos olhos, puxaste dum papel e disseste o poema com a força de quem o escreve.

Senti, naquele momento, a simbiose entre dois poetas maiores: um, o que acabara de partir. O outro, o que ali lhe lavrava a memória. Autobiográfico, talvez. Mas como só tu o poderias fazer.

Agora, dois anos e meio depois, num Dezembro de ventos e mistérios, algures numa Biblioteca que, apesar de tudo, tem feito ouvir do melhor que se escreve por aí, reencontro-te a ti, “vinte quilos mais novo”, num livro belíssimo “quase póstumo” como tu próprio dizes, brincando com o outro lado da vida.

Vou folheando o livro, como que desfolhando o cravo que o aconchega e reencontro também o poema. Não resisto e recupero a memória de uma resposta perdida no tempo: “Ó Lúcio, você tem de publicar isso, homem!” 

Como escreveu o Pedro Barroso num sublime prefácio tocado de ouvido, tu és mesmo um poeta maior. E ali estava o poema, aquele poema, (a)final e merecidamente publicado. Coisas de poetas…

Desta vez, Lúcio, poupaste-me a crónica. Devo-te isso e muito mais. Algumas horas de deleite a ler-te, reler-te e ouvir-te. O livro andará por aí. O poema, esse, não leves a mal, ficará por aqui também, que eu quase lhe assisti ao parto:

“agora, deveras, tenho pena”

Não sei bem como tudo agora é.
assisti já a tanto gesto inútil que não sei para que servem
as utopias, as ascensões e as quedas:
vi erguer sonhos e jurar promessas
vi depois tombar um muro e a férrea cortina
vi cair um Coiso na cadeira – ou na banheira –
e vi cair o Carmo e a Trindade
vi depois caírem as palavras que tanto dourei por tanto tempo.
Agora já não fumo.
Já não me cai a cinza do cigarro sobre as folhas de papel
quando me levanto às três da manhã para escrever.

Não sei porque tudo é tão banal e tão diferente.
Dantes nos serões de culto liamos o Régio e o Mayakovsky
víamos Bergman e Eisenstein.
Agora não sei bem como tudo agora é.
Ou sei e não quero saber.
E é também por isso que sinto saudade e pena.
Pena não. Não se sente pena do pulsar da vida.
Apenas saudade. Do pulsar da vida e de outros mitos
Que a vida se faz de mitos e das coisas que pulsam
sem que nos demos conta.

Vês morrer o Herberto e nós conseguimos resistir.
Partiu a lenda viva que cantou a morte e nós
teimosamente e distantes aqui a pulsar a vida.
Não sei bem como tudo agora irá ser.
Sei que não voltarei a fumar nem a gritar
as palavras que dourei por tanto tempo.

Fechei para sempre a porta das viagens interiores
lancei-me nos braços das recusas – tantas recusas –
que nem consigo agora falar da morte tal como ele ensinou.
Nunca te tinha dito nada disto
nem sequer pensado em escrevê-lo para ti.
Vou ficar assim como as estórias assombradas entaladas
entre os muros de sombras do passado e as portas
que se abrem apenas em dias de luz.

Estão cada vez mais vazios os lugares do passado e eu
agora já não sei como tudo agora é.
Vazio, vazio pois.
Mais vazio do que o vazio daquele tempo dos dias
das utopias, das quedas, dos serões de Régio e Eisenstein
mais vazio do que os meus dedos ausentes de cigarros

Vazio como o espaço que nos fica vago
e rasgado pela ausência da lenda que se cantou na morte.
Ficam-me as doces recordações dos dias que dourei.
Ainda escrevo angústias na madrugada. Mas já não fumo.
E faz-me falta a cinza como primeira estrofe.

Afinal sempre tenho pena.
Agora, deveras, tenho pena.”

António Lúcio Vieira, em “25 Poemas de dores e amores”

Depois disto, Lúcio, vai, voa e prossegue a viagem.

Que agora, deveras, tenho pena, se quem, mesmo que não tenha lido Régio ou Mayakovsky, continue sem descobrir o poeta maior que tu és.

Que até pode esquecer-se como se chora, mas nunca esquecerá como se escreve.

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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