Na cerimónia, realizada no Parque do Lavradio, Adérito Morgado esteve acompanhado pela esposa e pela filha, que subiu ao palco com o pai e leu um pequeno discurso de agradecimento e reconhecimento pela distinção. Foi um dos momentos mais emotivos da tarde, com o homenageado muito saudado e aplaudido por amigos e populares presentes.
“Se calhar sou mais alcanenense do que muitos que cá nasceram”, disse Adérito Morgado ao mediotejo.net, numa conversa antes da cerimónia em que o Município de Alcanena lhe atribuiu o Galardão Carreira, no âmbito da iniciativa Regenerar Alcanena 2026.
Aos 76 anos, o antigo funcionário das Finanças, radialista, colaborador de “O Alviela” e participante em numerosas iniciativas culturais, desportivas e associativas admitiu que a distinção o apanhou de surpresa.
“Claro que [fico orgulhoso]. Quem é que não fica?”, afirmou, antecipando também a emoção de receber publicamente o reconhecimento: “Estar lá com a minha família e amigos ao pé de mim e estar a receber um galardão destes… Quem é que não se emociona? Só quem não tiver sentimentos.”

De Luanda e Trás-os-Montes até Alcanena
Adérito Abílio Bernardino de Carvalho Morgado nasceu em Luanda, Angola, em 18 de abril de 1950, mas passou os primeiros anos de vida na Cardanha, em Torre de Moncorvo. Aos 12 anos regressou com a família a Angola, de onde saiu definitivamente em 1975. De volta a Portugal, ingressou na função pública, nos serviços de Finanças, começando por trabalhar em Lisboa.
Dois anos depois surgiu a oportunidade de escolher outro local para viver e a opção por Alcanena teve, inicialmente, pouco de sentimental. “Os meus pais viviam em Trás-os-Montes” e a preocupação era ficar num local que permitisse chegar com facilidade à linha ferroviária e viajar para junto da família, recordou. Foi colocado em Alcanena em 1977 e, depois, brinca, houve uma razão adicional para ficar: “Houve uma senhora que me enganou, obrigou-me a casar com ela, felizmente.”
A mulher, natural da Moçarria, acabaria por reforçar a ligação ao concelho, onde construiu família. “Por cá vivi e por cá estou a viver”, resumiu.

Do casamento nasceu uma filha e chegou, depois, uma neta. “Estou muito feliz”, afirmou. O que começou por ser uma escolha determinada pela proximidade à linha ferroviária acabou por transformar-se numa ligação de quase cinco décadas a Alcanena.
Das Finanças para “O Alviela” e para a rádio
Enquanto construía uma carreira profissional nas Finanças, Adérito Morgado foi entrando na vida cultural e social do concelho. A proximidade à Igreja esteve na origem de alguns dos primeiros passos, através da participação em grupos de jovens e, mais tarde, no grupo coral.
Quando surgiu a oportunidade de colaborar com o jornal “O Alviela”, aproximou-se também da comunicação social. Escrevia “sobre o que fosse”, disse, sobretudo acerca da vida do concelho e da sociedade local.
Depois chegou a Rádio Voz de Alcanena, onde fazia “tudo um pouco”, da música à informação. A estação funcionava praticamente em frente de sua casa e Adérito Morgado recorda com humor a simplicidade dos meios e a proximidade com os ouvintes que caracterizavam a rádio local daquela época. “Era põe o disco, toca o telefone e pronto”, contou, numa referência aos programas e aos discos pedidos pelos ouvintes.


Mais tarde seria também locutor na Rádio Pernes. Hoje, tanto a Rádio Voz de Alcanena como o jornal “O Alviela” pertencem à memória da comunicação local, mas Adérito Morgado não hesita quando recorda esses anos. “Gostei, gostei”, afirmou, resumindo a ligação à rádio numa frase: “Há pessoa que quando nasce radialista, radialista continua.”
Cultura, associativismo e desporto
Mas a presença de Adérito Morgado na vida de Alcanena não ficou pela comunicação social. Ao longo das décadas esteve ligado à organização e dinamização de espetáculos, festivais da canção infantil, grupos corais e projetos musicais, participou na vida do Atlético Clube Alcanenense e colaborou com a Universidade Sénior.

Esteve igualmente ligado ao desenvolvimento do karaté e ao atletismo, através da Casa do Povo de Alcanena. Foi aí que se cruzou com um jovem Carlos Calado, que viria a tornar-se uma das referências do atletismo português.
Adérito Morgado relativiza o seu próprio papel nesse percurso, mas reconhece que ajudou a dar visibilidade ao atleta. “O papel foi propagando-o. Foi sendo, digamos, o eco daquilo que ele era”, explicou, acrescentando que Carlos Calado “acabou por ser lançado por mim e por muitos que o acompanharam”.
Questionado se ficou orgulhoso quando viu até onde o atleta chegou, a resposta foi imediata: “Quem é que não fica? Fiquei bastante orgulhoso.”
A reação é semelhante à que manifesta perante o galardão que agora recebeu. Ao contrário de outras fases da vida, porém, Adérito Morgado já não procura novos projetos. Reformado, diz que chegou o tempo de abrandar. “Agora, quanto mais descanso, melhor”, brincou.

O presidente da Câmara de Alcanena, Rui Anastácio, destacou na cerimónia precisamente essa presença prolongada na vida local.
“Na rádio, na escrita, nos eventos e nas iniciativas da comunidade, o Morgado esteve sempre presente”, afirmou, considerando que o concelho nunca lhe tinha agradecido devidamente tudo aquilo que fez. “Hoje fazemos um pouco de justiça”, acrescentou.

Depois de quase 50 anos em Alcanena, o município reconheceu-lhe assim um percurso profissional, cívico e cultural marcado pela passagem pela administração pública, comunicação social, cultura, associativismo e desporto.
Uma história que começou com a procura de um lugar próximo do comboio para poder viajar até Trás-os-Montes e que acabou por fazer de Alcanena a sua terra.
A emoção que antecipara acabou também por marcar a cerimónia. Com a esposa presente e a filha ao seu lado no palco, Adérito Morgado ouviu as palavras de agradecimento e reconhecimento antes de receber uma longa salva de palmas de muitos dos amigos e alcanenenses que acompanharam a homenagem.

A cerimónia integrou o Regenerar Alcanena 2026 e teve como objetivo reconhecer pessoas, empresas e instituições pelo contributo para o desenvolvimento económico, social e comunitário do concelho.
Foram atribuídos galardões nas categorias Carreira e Responsabilidade Social, a par das distinções PME Líder 2025 e PME Excelência 2024, valorizando percursos individuais, desempenho empresarial, criação de emprego, inovação e ligação à comunidade.
