Durante quase uma década, o campo do CCD Amoreira, no concelho de Abrantes, habituou-se ao silêncio. Onde antes se ouviam os apitos do árbitro, os gritos vindos da plateia e o som da bola a rolar, restaram apenas as marcas do abandono. Os balneários deixaram de receber jogadores, as linhas do campo desapareceram com o tempo e a vegetação foi reclamando um espaço que deixara de cumprir a sua maior vocação: reunir uma aldeia inteira em redor do futebol.

Na Amoreira, o desaparecimento da equipa no final da época de 2016/2017 significou muito mais do que o fim de uma modalidade. Perdeu-se um ponto de encontro, uma rotina de domingo, um motivo de orgulho coletivo. Durante anos, parecia difícil imaginar que aquele recinto voltaria a encher-se de vida.
Mas há histórias que ficam apenas à espera de quem tenha coragem para lhes dar continuidade.
No próximo dia 30 de agosto, o Convívio, Cultura e Desporto da Amoreira (CCD Amoreira) apresentará oficialmente a nova equipa de futebol, assinalando o regresso de uma tradição que durante décadas fez parte da identidade da aldeia, na freguesia de Rio de Moinhos, concelho de Abrantes.

Antes do jogo de apresentação frente à Bemposta, haverá uma homenagem a José Brunhete, mais conhecido por José Barbeiro, antigo presidente da coletividade e uma das figuras que mais contribuiu para a história do clube. O momento simboliza o reencontro da Amoreira com uma parte importante da sua memória. Mas este regresso começou muito antes do primeiro treino, muito antes de existir um plantel ou um calendário competitivo. Começou quando alguém olhou para um campo silencioso e decidiu que ainda havia ali futuro.
João Rodrigues nunca foi jogador de futebol. Também não cresceu na Amoreira. Nasceu em Lisboa, foi criado em Bucelas, no concelho de Loures, e só há cerca de 16 anos é que a vida o trouxe para esta pequena aldeia do concelho de Abrantes. Foi ali que encontrou aquela que viria a ser a sua mulher, natural da terra, e acabou por descobrir uma comunidade que o acolheu de tal forma que hoje fala dela como se sempre lhe tivesse pertencido.

“Vim parar à Amoreira há sensivelmente 16 anos, por algumas vicissitudes da vida, em que conheci a esposa, que é daqui da terra. Vim de longe, mas fui muito bem acolhido aqui e sinto-me em casa. Claro que a nossa terra é sempre a nossa, mas aqui é como se fosse também a minha terra”, conta, sem esconder o carinho que desenvolveu pela localidade.
Apesar de o futebol ocupar agora grande parte dos seus dias, a ligação de João Rodrigues ao associativismo nasceu muito antes deste projeto. Na terra onde cresceu chegou a integrar uma coletividade, mas foi já na Amoreira que encontrou o espaço onde podia dedicar parte do seu tempo à comunidade. Entrou para a Associação de Moradores em 2017 e durante cerca de nove anos desempenhou diferentes funções diretivas, incluindo como vice-presidente e presidente.
“Tive cerca de nove anos como diretor, alguns como presidente e vice-presidente. Mas chega uma altura em que sentimos que deixámos algum legado, alguma coisa visível, e há que partir para novas etapas, novos desafios”, explica.

Foi precisamente nessa altura que começou a olhar para o campo de futebol de forma diferente.
Quando chegou à Amoreira, o futebol ainda dava os últimos passos antes de desaparecer. Assistiu ao encerramento da atividade desportiva, viu o espaço ficar vazio e percebeu, ao longo dos anos, que aquela ausência continuava a ser sentida pela população.
“Quando eu cheguei à associação foi quando o futebol mais ou menos desapareceu. E pensei: porque não reativar isto e pôr isto outra vez a trabalhar?”, recorda. “Gosto de ver futebol, mas nunca fui jogador. A minha ambição era outra: pôr isto novamente a funcionar.”
Mais do que recuperar uma equipa, recuperar uma identidade
A decisão de avançar surgiu no início de 2025. João Rodrigues recorda-a como uma daquelas resoluções que aparecem no início de um novo ano e que, ao contrário de tantas outras, acabaram mesmo por sair do papel. O antigo Centro de Cultura e Desporto da Amoreira tinha deixado de existir enquanto estrutura autónoma e era necessário começar praticamente do zero. Mas, para o atual presidente, havia uma condição que nunca esteve em causa: preservar a identidade da coletividade.
Em vez de criar um clube completamente novo, decidiu recuperar a história. O antigo CCD funcionava como uma secção da Associação de Moradores. Agora, a realidade seria diferente. Nasceria uma associação própria, independente, com personalidade jurídica, mas sem apagar tudo aquilo que tinha sido construído ao longo de décadas.

“O CCD antigo trabalhava como uma secção da Associação de Moradores. Hoje é uma associação independente. Começou a ser preparada em 2025, teve a escritura oficial e ficou registada em setembro de 2025. É uma coisa muito recente”, explica.
Foi então que surgiu uma decisão carregada de simbolismo. O nome mudou, mas apenas o suficiente para garantir que a história continuava.
“Foi uma das coisas em que fiz questão de manter. O CCD Amoreira volta exatamente com as mesmas iniciais, mas com um nome diferente. Antigamente era Centro de Cultura e Desporto. Hoje é Convívio, Cultura e Desporto. Alterou-se apenas a primeira palavra para manter todo o histórico. O símbolo continua exatamente o mesmo”, sublinha.

Mais do que uma alteração administrativa, tratou-se de uma forma de dizer à população que aquele clube continuava a ser o mesmo, mesmo depois de tantos anos parado.
João Rodrigues assume até um certo orgulho por ter participado nesse processo. “Digamos que sou o pai da coisa. Foi criar a associação e manter todo o traço antigo”, afirma.
Mas recuperar o nome era apenas o primeiro passo, era preciso devolver vida ao campo.
“Toda a gente falava no futebol”
Ao longo dos anos em que esteve ligado à Associação de Moradores, João Rodrigues percebeu que havia um tema que regressava constantemente às conversas: o futebol.
As pessoas perguntavam quando voltaria, recordavam os tempos em que o campo se enchia, falavam das tardes de domingo, das rivalidades saudáveis, dos jogos e do convívio. Mas a vontade esbarrava sempre na mesma dificuldade: ninguém assumia a responsabilidade de avançar.

“Sempre tive muito contacto com as pessoas. É esse o meu princípio no associativismo: estar próximo delas e procurar satisfazer aquilo que elas querem. E era sempre a mesma conversa… o futebol, o futebol, o futebol. Todas as pessoas falavam nisso, mas nunca ninguém se quis chegar à frente. Eu cheguei-me à frente e pus as coisas a andar”, conta.
Mais do que formar uma equipa para competir, João Rodrigues acreditava que o regresso do futebol podia devolver uma dinâmica que a aldeia tinha perdido.
“Queria trazer outra vez as pessoas e dar um bocadinho mais de alegria. Não é que a associação não o faça, mas o futebol faz do fim de semana, principalmente do domingo, um dia de convívio e de juntar a freguesia, sobretudo as pessoas da Amoreira”, afirma.
A ideia parecia simples, mas na prática, estava longe de o ser.
Quando voltou a entrar nas instalações, percebeu que o verdadeiro adversário não seria encontrado dentro das quatro linhas, mas sim no estado em que quase dez anos de abandono tinham deixado o património da coletividade.

Recuperar um campo, reconstruir um sonho
A realidade que encontrou confirmou aquilo que já imaginava, mas em proporções maiores. Os anos de inatividade deixaram marcas profundas nas instalações. O campo manteve-se de pé, mas tudo o que o rodeava foi sendo consumido pelo abandono e pelo vandalismo. Balneários sem condições, portas arrombadas, janelas partidas e praticamente todo o equipamento desaparecido obrigaram a que o regresso do futebol começasse muito antes de existir uma equipa.

“O mais complicado foi a recuperação de todo o espaço. Houve vandalismo, assaltaram isto, levaram torneiras, janelas, arrombaram portas… A parte da recuperação é a mais complicada porque, apesar de termos amigos que ajudam, é preciso material e o material é caro”, explica João Rodrigues.
À medida que enumera aquilo que desapareceu, percebe-se que não está apenas a fazer um inventário de prejuízos. Está a recordar tudo aquilo que foi necessário reconstruir para tornar possível um simples treino de futebol.
“Os balneários nem chuveiros tinham. Roubaram os chuveiros, as torneiras, até os mecanismos dos lavatórios levaram. É só para ter uma ideia, já gastámos aqui muito dinheiro e ainda parece que não foi feito nada”, lamenta.
Apesar das dificuldades financeiras, João Rodrigues nunca pensou desistir. Sabia que recuperar um espaço daquela dimensão exigiria tempo, investimento e muita persistência. Mas também descobriu, desde cedo, que havia algo que nunca faltou à Amoreira: disponibilidade para ajudar.
“Posso dizer que é só falar que eles estão cá para ajudar naquilo que for preciso”, afirma, referindo-se aos muitos amigos e voluntários que foram aparecendo sempre que era necessário limpar, reparar ou preparar mais uma etapa do projeto.

Se João Rodrigues é frequentemente apontado como o rosto deste regresso, faz questão de repartir o mérito por quem aceitou acompanhá-lo desde o primeiro dia. A direção do CCD Amoreira é composta por doze elementos e, segundo o presidente, foi cuidadosamente pensada antes mesmo de o clube existir formalmente.
“Quando arranquei com o projeto já sabia quem queria comigo. Só poderia recomeçar se essas pessoas me ajudassem”, afirma.
A escolha não foi feita ao acaso. Quase todos os elementos têm uma ligação antiga à Amoreira, muitos estiveram ligados ao antigo CCD e vários conhecem bem a realidade do futebol popular. Curiosamente, o único que nunca teve ligação direta à modalidade é precisamente o presidente.
“Eu sou o único que não sou do futebol. O meu vice-presidente foi dirigente do antigo CCD Amoreira durante muitos anos, juntamente com o falecido José Barbeiro. Depois cada pessoa ficou responsável por uma área diferente. Só assim é que isto pode funcionar”, explica.

Há quem trate dos jogadores, quem prepare a logística, quem marque o campo antes dos jogos e quem assegure as inúmeras tarefas invisíveis que fazem um clube funcionar. Nenhuma é menos importante do que outra.
“Há pessoas que podem considerar menos válidas, mas para mim são das mais importantes, como os elementos que marcam o campo. Aquilo não é chegar ali e fazer. Eles sabem como se faz porque fizeram aquilo durante muitos anos”, diz, valorizando um trabalho que raramente aparece nos holofotes.
Um plantel que junta a terra e quem nunca esqueceu a Amoreira
Encontrar jogadores também fez parte do desafio. João Rodrigues admite que seria impossível construir uma equipa composta apenas por atletas naturais da Amoreira. A realidade demográfica da aldeia não o permite. Ainda assim, fez questão de que o grupo tivesse uma forte ligação ao lugar que vai representar.
Entre os atletas há jogadores nascidos e criados na Amoreira, outros com raízes familiares na localidade e vários que já vestiram a camisola do antigo CCD antes da interrupção da atividade.

“Temos três ou quatro elementos da terra, nascidos e criados cá. Depois temos alguns com afinidades à Amoreira e outros amigos de Montalvo, Abrantes e de outras localidades. Há jogadores que já jogaram aqui antes do clube parar e que quiseram voltar apenas pelo gosto de jogar novamente na Amoreira”, conta.
Mais do que a origem geográfica, João Rodrigues acredita que o essencial é preservar a identidade do clube. “Temos pessoal da terra, que é o essencial para puxar a mística da Amoreira”, resume.
O objetivo nunca foi apenas reunir jogadores suficientes para competir, era construir um grupo capaz de representar a aldeia dentro e fora das quatro linhas.
Ao contrário do que poderia acontecer, a direção optou por manter o projeto longe dos holofotes durante largos meses. João Rodrigues receava criar expectativas demasiado cedo e preferiu trabalhar em silêncio até existir algo de concreto para mostrar.

“Fiz questão de não alavancar muito isto ao início. Só quando já tínhamos uma base mais real é que começámos a divulgar”, recorda. A estratégia resultou.
Embora muitos habitantes soubessem que alguma coisa estava a ser preparada, foi apenas com o anúncio oficial da apresentação da equipa que o entusiasmo se tornou visível.
“Agora vê-se o pessoal muito mais motivado e mais alegre porque isto vai acontecer mesmo. Até aqui não deixava de ser apenas um grupo a tentar. Agora já há coisas reais e públicas”, afirma.
No dia 30 de agosto, a Amoreira viverá um desses momentos que dificilmente se resumem a um jogo de futebol. Antes do encontro de apresentação frente à Bemposta, o clube prestará homenagem a José Brunhete, conhecido por José Barbeiro, antigo presidente do CCD e uma das pessoas que mais marcaram a história da coletividade.
“Vamos fazer uma homenagem ao senhor José Barbeiro, que foi presidente durante muitos anos do CCD Amoreira. Infelizmente já partiu. Depois fazemos a apresentação oficial da equipa e um jogo amigável com a Bemposta”, anuncia João Rodrigues.
Quando questionado sobre os objetivos da primeira época, João Rodrigues evita discursos ambiciosos. Não fala em títulos nem em classificações. A prioridade está noutro lado.
“Neste momento é pôr a bola a rodar e trazer as pessoas. Esse é o principal objetivo. Depois o futuro dirá. Claro que qualquer equipa entra para ganhar, mas esta primeira época é literalmente para pôr a bola a rolar e trazer as pessoas”, afirma.
Também quando olha para os próximos cinco anos prefere a prudência aos grandes anúncios. Gostaria de ver um clube financeiramente estável, consolidado e capaz de continuar a representar a Amoreira, mas sem perder aquilo que considera ser a verdadeira essência do projeto.

“Espero que o clube esteja cá daqui a cinco anos e que eu também esteja cá. Não venho para estar aqui um ano e ir-me embora. Quero ajudar a fazer crescer isto. Projetar muito o futuro não gosto, mas espero que consigamos fazer aqui coisas bonitas”, afirma.
As “coisas bonitas”, explica, não passam apenas pelos resultados, passam, acima de tudo, por voltar a ver o campo cheio. Porque, para João Rodrigues, o futebol nunca foi apenas futebol, foi sempre um pretexto para aproximar pessoas.
E talvez seja essa a maior vitória que o CCD Amoreira já conquistou antes mesmo de disputar o primeiro jogo oficial.
Durante quase dez anos, a ausência do futebol foi apenas o sinal mais visível de um silêncio maior. Um silêncio que se instalou num espaço onde, durante gerações, se criaram memórias, amizades e domingos que pareciam fazer parte da vida da aldeia.
A bola ainda nem começou a rolar, mas na Amoreira, há muito que o jogo já recomeçou.
