Cerca de uma centena de populares lotaram o auditório da junta de freguesia de São Miguel do Rio Torto para manifestarem o seu descontentamento com o fecho da extensão de saúde da localidade. Foto: mediotejo.net

Cerca de uma centena de populares lotaram na sexta-feira o auditório da junta de freguesia de São Miguel do Rio Torto para manifestarem o seu descontentamento com o fecho da extensão de saúde da localidade e reclamarem pela reposição do serviço de atendimento médico e de enfermagem. O recém empossado presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Valamatos (PS), foi ouvir a comunidade e as suas preocupações, solidarizou-se com os populares e pediu algum tempo que lhe permita encetar diligências no sentido de criar condições para o restabelecimento da atividade médica em São Miguel.

O recente encerramento do centro de saúde de São Miguel do Rio Torto, concentrando os serviços na Unidade de Saúde Familiar (USF) em Rossio ao Sul do Tejo, a cerca de três quilómetros de distância, está na origem dos protestos da população, que se viu privada de um serviço de proximidade em termos de assistência médica e de enfermagem.

Com cerca de 800 habitantes, as gentes de São Miguel do Rio Torto eram atendidas por uma médica duas vezes por semana, e é esse serviço de proximidade que os populares exigem que se mantenha na aldeia, rejeitando que a comunidade, essencialmente a mais idosa e com problemas de mobilidade, tenha de se deslocar a outra localidade.

O recente encerramento do centro de saúde de São Miguel do Rio Torto, concentrando os serviços na Unidade de Saúde Familiar (USF) em Rossio ao Sul do Tejo, a cerca de três quilómetros de distância, está na origem dos protestos da população. Foto: mediotejo.net

Manuel Jorge Valamatos já havia sido confrontado com o descontentamento popular há cerca de duas semanas, na primeira sessão de Assembleia Municipal a que presidiu na qualidade de presidente da Câmara de Abrantes, onde ocorreram alguns munícipes de São Miguel do Rio Torto em protesto contra o encerramento do posto de saúde da localidade. O presidente lembrou que estava no cargo há poucos dias, não estava dentro do processo, e explicou na ocasião que a decisão era da competência do Ministério da Saúde, tendo prometido uma reunião célere com a diretora executiva do ACES do Médio Tejo [Sofia Theriaga] para tentar perceber a situação, dando conta que iria a São Miguel transmitir de viva voz o resultado da mesma. E foi o que fez, perante cerca de uma centena de populares, acompanhado da vereadora Celeste Simão.

O presidente da Câmara de Abrantes não era portador da notícia que a população quereria ouvir, tendo assegurado, depois de ouvir algumas vozes mais exaltadas e outras mais esclarecidas, que sente este problema como seu, afirmando estar “preocupado e sensibilizado” para a questão. “Já percebemos a injustiça que está aqui em causa em termos de proximidade nos serviços de saúde e tudo farei para voltar a ter a situação aqui reequilibrada”, afirmou.

O recém empossado presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Valamatos (PS), foi ouvir a comunidade e as suas preocupações. Foto: mediotejo.net

Para já, o que o autarca pediu foi algum “tempo”, tendo precisado necessitar de “duas semanas” para voltar a reunir com quem administra as questões da saúde no território [ACES Médio Tejo e ARS de Lisboa e Vale do Tejo] tendo assegurado que “se a Câmara pudesse pagar a um médico para prestar serviço em São Miguel”, o faria de imediato e “o problema ficaria já resolvido”.

Não sendo assim, Manuel Valamatos lembrou que, “para já, e em primeiro lugar, está a saúde das pessoas. Não deixamos de ter Serviço Nacional de Saúde a funcionar”, notou, e, nesse sentido, pediu à população que utilize os transportes que a autarquia e a junta de freguesia vão disponibilizar para se poderem deslocar à USF Beira Tejo, em Rossio ao Sul do Tejo, nas próximas duas semanas. No entrementes, prometeu aos populares que vai trabalhar no sentido de “criar condições para restabelecer a atividade médica e enfermagem” em São Miguel.

“Se a situação ficar resolvida, eu não preciso voltar aqui, todos saberão o trabalho que cada um desenvolveu, se não ficar resolvido, por algum motivo (…) sou eu que venho aqui ter convosco e dar-vos conta”, assegurou, assumindo a sua frontalidade.

Cerca de uma centena de populares lotaram o auditório da junta de freguesia de São Miguel do Rio Torto para manifestarem o seu descontentamento com o fecho da extensão de saúde da localidade. Foto: mediotejo.net

Cerca de uma centena de munícipes, na maioria idosos lotaram o salão da junta de freguesia na sexta-feira, preocupados com o encerramento do posto de saúde em São Miguel do Rio Torto, e considerando que “a retirada destes serviços é mais uma machadada no futuro da comunidade”, solicitando “a inversão do encerramento do posto de saúde” e dando conta de “uma população maioritariamente idosa” sem condições financeiras para se deslocar à USF de Rossio ao Sul do Tejo de carro, ou mesmo de transportes públicos.

Em resposta, o novo presidente explicou que, por ter tomado posse há poucos dias, desconhecia as questões da saúde até por não fazerem parte dos seus pelouros. No entanto, reiterou que a decisão de encerrar ou manter aberto o posto de saúde é da responsabilidade do Ministério da Saúde. “A organização dos médicos e dos enfermeiros não é da responsabilidade da Câmara Municipal”, insistiu Manuel Valamatos, prometendo estar do lado da população na reivindicação apresentada.

O presidente da Câmara de Abrantes não era portador da notícia que a população quereria ouvir, tendo assegurado, depois de ouvir algumas vozes mais exaltadas e outras mais esclarecidas, que sente este problema como seu, afirmando estar “preocupado e sensibilizado” para a questão. Foto: mediotejo.net

Os populares aceitaram o pedido de tempo solicitado pelo autarca, tendo aplaudido um cidadão que lembrou que este é ano de várias eleições e que, se o problema não ficar resolvido, “em São Miguel ninguém votará”. Noutra perspetiva, o presidente da União de Freguesias de São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo, Luís Alves (PS), lembrou que os a USF de Rossio ao Sul do Tejo presta um “serviço de saúde mais diversificado e de grande qualidade” mas criticou uma decisão [de encerramento do posto de saúde de São Miguel] que “vai contra um serviço público de proximidade”.

Com o encerramento, a alternativa para os utentes que necessitem de recorrer a serviços médicos é na nova USF, o que implica uma viagem de 6 quilómetros ida e volta, situação que o presidente considera ser “complicada”.

Cerca de uma centena de munícipes, na maioria idosos lotaram o salão da junta de freguesia na sexta-feira, preocupados com o encerramento do posto de saúde em São Miguel do Rio Torto. Foto: mediotejo.net

“Estamos a falar de uma população essencialmente idosa, com dificuldades de locomoção, com dificuldades cognitivas e que não sabe pedir o transporte a pedido”, apontou. Isto porque, a solução apresentada pela Câmara Municipal de Abrantes passa pelo projeto Transporte a Pedido, um serviço que, segundo a população, não vem dar resposta porque implica custos.

Quem também se tem manifestado contra a falta de médicos e de um serviço de saúde de proximidade é o presidente da União de Freguesias de São Facundo e Vale das Mós. António Campos (PS) lembra que as duas aldeias terão cerca de 1500 habitantes e que estão sem médico há quatro anos. “Também nós reivindicamos o regresso de médicos às nossas aldeias a par do serviço de enfermagem, um direito conquistado pelo povo há mais de 45 anos, com o 25 de abril” de 1974, lembrou.

“Se a situação ficar resolvida, eu não preciso voltar aqui, todos saberão o trabalho que cada um desenvolveu, se não ficar resolvido, por algum motivo (…) sou eu que venho aqui ter convosco e dar-vos conta”, assegurou Manuel Valamtos. Foto: mediotejo.net

Contactada pelo mediotejo.net, Sofia Theriaga, diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo disse que este novo modelo de USF “tem regras próprias e não é compatível com tantos polos”.

“A equipa”, referiu, justificando o encerramento do polo de São Miguel, “não tem capacidade para ter tantos polos [a funcionar] e com a qualidade exigida nos dias de hoje”.

“Na USF de Rossio a acessibilidade a cuidados médicos é melhor, porque passam a ter acesso todos os dias, das 8:00 às 20:00, ao invés de apenas dois dias por semana, e os cuidados melhoram também, nomeadamente na doença aguda e com o necessário acompanhamento dos grupos de risco”, defendeu.

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *