O presidente do Conselho Regional Sul da Ordem dos Médicos destacou hoje os “elevados níveis de qualidade” de alguns serviços do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT). Foto: mediotejo.net

“Hoje fizemos uma visita ao Centro Hospitalar do Médio Tejo, às três unidades (…) e na sequência da visita a várias unidades da região sul, num período em que todas elas passam por dificuldades que são comuns a muitos hospitais. E o que tem acontecido neste centro hospitalar é que tem sido um dos centros hospitalares que nos últimos quatro ou cinco anos nos tem dado menos problemas. E queríamos perceber porquê e o que é que estava a acontecer”, afirmou aos jornalistas Alexandre Valentim Lourenço, em Abrantes, durante uma visita aos três hospitais do Centro Hospitalar do Médio Tejo.

“Vimos várias unidades muito bem apetrechadas, os equipamentos e os serviços tem uma qualidade melhor que alguns hospitais centrais, e vemos pessoas que continuam a dar o máximo, que começam a sentir as dificuldades, que estão muito cansados, mas continuamos a ter alguns serviços de referência numa região que parece limítrofe e não é”, afirmou, apontando alguns exemplos da qualidade dos serviços que constatou.

“Um excelente serviço de nefrologia, uma capacidade de pediatria, da neonatologia ou da ortopedia de continuar a trabalhar, mesmo com listas de espera, com tudo o que aflige toda a medicina em Portugal no serviço público, mas com um grande esforço dos profissionais”, destacou, tendo feito notar alguma preocupação com o futuro dos quadros médicos.

“Todos eles muito preocupados, porque são vários os que estão a aproximar-se do tempo de reforma e não vêm capacidade de renovar – há aqui algumas exceções – de um modo global, os quadros, como entendiam”, notou, tendo defendido uma postura da tutela que recompense o desempenho e a qualificação.

O presidente do Conselho Regional Sul da Ordem dos Médicos destacou os “elevados níveis de qualidade” de alguns serviços do Centro Hospitalar do Médio Tejo, que atribuiu ao esforço dos profissionais, num contexto de falta estrutural de recursos humanos, tendo constatado que, também aqui [no CHMT], “todos os serviços são afetados de uma forma global pela dificuldade estrutural do Serviço Nacional de Saúde em captar recursos humanos e em lhes dar capacidade e autonomia”.

Nesse sentido, “requerem [os médicos] que haja mudanças estruturais na carreira médica, que dignifique o exercício de cada um e que, sobretudo, recompense a qualificação. Os mais qualificados e aqueles que se querem diferenciar e que, além de serem especialistas ainda tiram mais competências e subespecialidades, possam ser recompensados de uma forma igual, e que não sejam prestadores externos com menos qualificação nas urgências a garantir o funcionamento da urgência”.

Ou seja, Alexandre Lourenço foi alertado pelos médicos para uma situação de “diferença e dicotomia entre muito qualificados e mal pagos e menos qualificados e bem pagos”.

O presidente do Conselho Regional Sul da Ordem dos Médicos destacou hoje os “elevados níveis de qualidade” de alguns serviços do Centro Hospitalar do Médio Tejo. Foto: mediotejo.net

ÁUDIO | ALEXANDRE LOURENÇO, ORDEM DOS MÉDICOS:

Questionado sobre se existe alguma especialidade em concreto que vá passar pelo problema da reposição dos quadros, o responsável disse que os problemas “são mais intensos sempre nas especialidades mais expostas à urgência: a medicina interna, a obstetrícia e ginecologia e pediatria”.

“Existem situações, como a do serviço de anestesiologia”, que, disse, “conta com nove médicos no quadro para servir os três hospitais, acabando por recorrer a serviços externos para assegurar a Urgência e os blocos de partos e operatório, os quais se situam em cidades diferentes, obrigando a “um esforço brutal”.

“Aqui [no CHMT] a existência de um serviço de neonatologia num polo hospitalar e um serviço de pediatria no outro dificulta as escalas, porque se estivessem no mesmo, os médicos podiam às vezes fazer coisas ao mesmo tempo e estar mais juntos, mas o facto de termos os partos aqui e a urgência pediátrica noutro lado, é um pouco de contrassenso, funcionou sempre bem enquanto havia muitos médicos, e se começarem a reduzir nós não teremos esses médicos”, alertou, destacando uma visita que o deixou muito agradado.

“Quero destacar também a positiva, acho que a Ordem também tem de destacar a positiva, por exemplo do serviço de nefrologia, um serviço que tem muitas valências, que continua a atrair internos de todo o país, eu vi uma interna do segundo ano que vinha de Coimbra a dizer, no segundo ano, que quer ficar naquele hospital, e isto são exemplos positivos de que equipas bem estruturadas e a trabalhar bem conseguem mesmo assim atrair muita gente e ser um polo de atração. E nós temos de evitar que estas equipas desapareçam”.

“Temos de fazer exatamente o contrário, temos de incubar novas equipas com esta qualidade nas várias especialidades e dar-lhes capacidade de eles trabalharem, deixarem-nos trabalhar, de serem autónomos e de crescerem na medida que as populações precisam e requerem a estes hospitais”, defendeu.

“Não faltam condições materiais e recursos humanos de muita qualidade, mas estão muito cansados e preocupados com a capacidade de renovação dos próximos anos”, acrescentou.

Para o representante da Ordem dos Médicos, o facto do Centro Hospitalar do Médio Tejo ser composto por três hospitais (em Abrantes, Tomar e Torres Novas) não representa uma diferença em relação a outros, dando exemplos de realidades similares.

“Não, há outros assim, ontem estive em Caldas e Torres Vedras, e há um distrito também com esses problemas com dois centros. E, por exemplo, a região do Alentejo, que são centros hospitalares diferentes, mas são quatro hospitais numa extensão brutal, com muito menos população que este distrito. Em que todos juntos se calhar têm isso. Isto têm-se de reforçar uma coisa: as diferenças entre Centros Hospitalares e regiões são tão grandes que nós não podemos ter uma forma de organização. As formas de organização têm de ser adaptadas a cada região e tirar os bons exemplos de cada região e deixar essas regiões organizarem-se com autonomia, porque elas, face aos problemas, tentam encontrar soluções”, defendeu, apontando a uma maior autonomia da classe médica.

“Se tivermos um governo centralista que diz que ‘tem de ser tudo assim’ há dois ou três sítios que funcionam bem e 20 que vão funcionar mal. Se dermos autonomia nós vamos ter todos os centros a funcionar melhor e a média vai melhorar”, assegurou Alexandre Valentim Lourenço, que saiu da reunião de trabalho em Abrantes com um sorriso rasgado.

“Eu saí com um sorriso por perceber que este centro é dos Centros Hospitalares que me dá menos trabalho e tem algumas razões para isso. Tem excelentes equipamentos, tem pessoal e médicos muito empenhados em melhorar a saúde das populações”, afirmou, tendo feito notar ser “importante que estas populações também acarinhem estes profissionais, que as autarquias e que todas as formas de poder local fortaleçam estas capacidades destas unidades hospitalares, de maneira a que se mantenham assim e possam ainda melhorar”.

O presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos abordou ainda a discussão sobre a necessidade de concentrar serviços, nomeadamente maternidades e obstetrícia, consoante os recursos humanos disponíveis em cada situação e tendo como objetivo último assegurar partos em qualidade e em segurança.

“Vai acontecer em vários serviços porque quando nós temos menos recursos não podemos abrir mais serviços, porque dispersamos os recursos e pode haver nalgumas situações [a necessidade] de concentrar os recursos. O que acontece na obstetrícia, e eu acabei de falar isso hoje, nós em Portugal há 15 anos tínhamos 115 mil nascimentos e agora temos 78 mil, temos 40% menos nascimentos e ter as mesmas maternidades significa que há menos partos em cada uma delas, mas que temos de ter os mesmos recursos para esses partos e por isso temos que nos organizar de uma maneira diferente”, defendeu.

“Se se fala de fusões, de reestruturações, eu não gosto de falar em encerramentos, porque o que nós temos de garantir é partos em qualidade e em segurança. Se for preciso concentrar teremos de concentrar. Se tivermos recursos para os manter abertos, com qualidade e segurança, devemos favorecer o acesso local e a proximidade”, disse.

Ordem dos Médicos destaca esforço dos profissionais do CHMT e aponta falta de recursos humanos. Foto: mediotejo.net

O resultado desta visita às três unidades do CHMT vai servir para uma análise interna conjunta e global do serviço médico prestado a nível nacional pela Ordem dos Médicos.

“Nós falámos inicialmente [com a administração do CHMT] mas este resultado é para nós, Ordem dos Médicos, para podermos adaptar os nossos pedidos e podermos responder sempre que houver alguma coisa. Quando alguém me disser ‘falta aqui qualquer coisa neste hospital’ eu já o conheço, sei o que falta, onde é que falta, e vimos novos materiais que vêm da boa vontade dos médicos, eu tenho visto os médicos a fazerem tudo para melhorar os serviços, mas era preciso dar-lhes um bocadinho de ajuda, deixá-los trabalhar mais”, concluiu.

O Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos esteve hoje reunido com médicos do Centro Hospitalar do Médio Tejo, num programa que teve início às 09h30 com visita e reunião no Hospital Rainha Santa Isabel (Torres Novas), seguindo-se o Hospital de Abrantes às 11h00, também com visita e reunião com médicos. O programa terminou em Tomar, com visita e reunião no Hospital Nossa Senhora da Graça.

Constituído pelas unidades hospitalares de Abrantes, Tomar e Torres Novas, separadas geograficamente entre si por cerca de 30 quilómetros, o CHMT funciona em regime de complementaridade de valências, abrangendo uma população na ordem dos 266 mil habitantes de 11 concelhos do Médio Tejo, a par da Golegã, da Lezíria do Tejo, também do distrito de Santarém, Vila de Rei, de Castelo Branco, e ainda dos municípios de Gavião e Ponte de Sor, ambos de Portalegre.

C/LUSA

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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