Foto: mediotejo.net

Na reunião de Câmara de 22 de agosto, os vereadores da oposição na Câmara de Abrantes, eleitos pelo ALTERNATIVAcom e PSD, questionaram o presidente do executivo de maioria socialista sobre a estratégia de investimento e dinamização das zonas industriais do concelho, bem como sobre a viabilidade económico-financeira do Parque de Ciência e Tecnologia, instalado no antigo Tecnopolo, em Alferrarede.

Sobre o Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia, em Alferrarede, Vasco Damas, do ALTERNATIVAcom aproveitou a sua intervenção no período antes da ordem do dia para questionar acerca da “sustentabilidade económico-financeira” daquela estrutura, pedindo mais esclarecimentos ao presidente da autarquia.

Por outro lado, o ALTERNATIVAcom colocou questões sobre o capital social e unidades de participação, pretendendo saber qual a evolução desde a fundação do parque, bem como perceber se o município pretende no futuro “subscrever mais Unidades de Participação, seja os 60.000€ já aprovados e que estão por subscrever, seja procedendo ao aumento do Fundo Associativo”.

“Perguntamos, também, se os objetivos e contrapartidas decorrentes do reforço de capital, os quais serviram de justificação para a aquisição de mais Unidades de Participação – nomeadamente as 106 unidades de participação adquiridas em 2016, no valor de 530.000,00€, e as 52 unidades de participação adquiridas em 2019, no valor de 260.000,00€ (eram para ser 64 unidades de participação e 320.000,00€) – foram ou não integralmente alcançados e escrutinados?”, perguntou Vasco Damas.

Tagusvalley – Associação para a Promoção e Desenvolvimento do Tecnopólo do Vale do Tejo. Foto: tagusvalley.pt

Entre as questões colocadas, também foi incluído tema da atribuição de subsídios à exploração, com o ALTERNATIVAcom a querer saber “até quando se prevê que o Município continue a atribuir Subsídios à Exploração da Tagusvalley, os quais mais do que quadruplicaram entre 2019 e 2022, passando de 61.395,50€ para 270.000,00€ anuais”.

Vasco Damas foi mais longe quanto ao Tagusvalley, e analisando as receitas vendas de bens e serviços, e entre 2019 e 2022, indicou que “foram manifestamente fracas e insuficientes, tendo sido realizados apenas 24% a 53% dos valores orçamentados (2019: 399.775,00€ Orçamentado e 95.751,94€ Realizado, 2022: 300.070,00€ Orçamentado e 92.763,81€ Realizado)”.

“Não se venha, uma vez mais, com a estafada desculpa da pandemia, um argumento que parece servir para todos os desaires e descalabros, pois o valor mais alto das vendas de bens e serviços foi atingido, precisamente, no exercício económico de 2021, tendo caído 28% em 2022”.

Quanto aos subsídios à exploração, indicou, “mais do que triplicaram neste período (2019: 204.646,06€, 2022: 679.279,70€), tendo o do Município mais do que quadruplicado estes subsídios (2019: 61.395,50€, 2022: 270.000,00€), indiciando que a Tagusvalley se transformou numa organização subsídio-dependente, sorvedouro de dinheiros públicos provenientes do sacrifício dos contribuintes”.

Noutro ponto, o vereador frisa o facto de os gatos com pessoal terem duplicado e continuarem a crescer. “Não só mais do que duplicaram entre 2019 e 2022 (2019: 264.671,26€, 2022: 614.377,46€), como ainda se prevê que no corrente ano cresçam mais 34,2%, num valor previsto de 824.872,34€, relativamente ao ano passado. Atente-se que os gastos com pessoal têm sido sempre muito superiores às vendas de bens e serviços, tendo em 2022 sido quase sete vezes superiores”.

Inov Linea no Tagusvalley, em Abrantes. Créditos: DR

“Perguntamos ao Sr. Presidente se confirma estes números e se, tal como nós, está ou não preocupado com a gestão e viabilidade económico-financeira do Tagusvalley, e o que pensa fazer para controlar e corrigir a situação, antes que ela se agrave ainda mais?”, questionou.

Vasco Damas questionou ainda sobre as empresas incubadas no Parque de Ciência no ano transato, referindo que o relatório de contas indica terem sido incubadas “16 novas empresas, tendo saído 6”.

“Nada diz sobre o número total de empresas incubadas, bem como o tempo e regime (ou tipo) de incubação de cada uma delas, em cumprimento do respetivo Regulamento e Contrato de Incubação”, alertou.

Também o facto de existir informação sobre “clientes com cobranças em atraso, traduzidas em imparidades acumuladas no valor de 31.839,83€” mereceu a atenção do movimento independente, referindo que o relatório “nada diz sobre a possibilidade e probabilidade de cobrar essas dívidas e respetivas diligências judiciais. Falta, também, informação sobre o emprego criado e respetiva duração”.

Em resposta a este aspecto, o presidente de Câmara de Abrantes disse que “todas as instituições que têm devedores fazem os seus processos de cobrança de acordo com a lei”, e deixou indicação para que o vereador colocasse por escrito as questões às quais não respondeu em reunião de Câmara.

(Des)investimento nas zonas industriais do concelho esteve em cima da mesa

Foto: mediotejo.net

Na segunda reunião pública do mês de agosto houve ainda tempo para falar sobre as zonas industriais do concelho de Abrantes, incluindo as de Alferrarede, Pego e Tramagal, também a oposição na Câmara Municipal, nas pessoas dos vereadores Vítor Moura (PSD) e Vasco Damas (ALTERNATIVAcom), introduziu o tema do investimento ou da falta deste nessas áreas significativas para o desenvolvimento económico do concelho.

Vítor Moura tem trazido este tema para cima da mesa, a par da proposta sobre criação de uma incubadora de empresas de base tradicional (não-tecnológica), e na reunião desta terça-feira, dia 22 de agosto, este voltou a ser debatido com o autarca Manuel Jorge Valamatos a solicitar esclarecimento sobre esta proposta e dizendo desconhecer alguma empresa que não tenha sido incubada no Parque de Ciência e Tecnologia (Tagusvalley).

Mas sobre a zona industrial de Tramagal, indicou Vítor Moura que existem cerca de uma dezena de lotes disponíveis e que a preocupação deve ser “criar condições” para que as pessoas que ali trabalham possam viver na vila. “É isso que não tem sido possível acontecer, as pessoas trabalham lá, mas a esmagadora maioria não tem condições para lá morar”, referiu.

Sobre a zona industrial Abrantes Sul, indicou que tem um terreno de pelo menos 9 hectares disponíveis, mas disse desconhecer a existência de um projeto de expansão para aquela área.

Já sobre a zona industrial a Norte, Vítor Moura relembrou ter trazido informação passada por um empresário abrantino, que terá falado na pouca disponibilidade de lotes para instalação de empresas, situação corrigida pelo executivo PS.

Vítor Moura insistiu, indicando ter-lhe sido confirmado que estariam disponíveis apenas três lotes naquela zona industrial, mas que mais tarde e conforme informação do vice-presidente da CMA, João Gomes, estariam disponíveis entre sete a 12 lotes.

O vereador social democrata interveio ainda sobre a zona industrial do Pego. “Eu já lhe pedi, e até ofereci disponibilidade de transporte pessoal meu, para irmos os dois e se o senhor Presidente puder, que me mostre onde ela está, que eu não sei onde é a zona industrial do Pego. Não conheço, não conheço nenhum projeto, não conheço nenhuma infraestrutura, não conheço nenhuma área designada de zona industrial do Pego, onde começa e acaba”, disse.

Por outro lado, Vítor Moura salientou que no Pego pode existir “algo diferenciador” nas zonas industriais de Abrantes, pela existência de um ramal ferroviário e pela sua localização geográfica em relação à autoestrada A23.

Central do Pego. Foto: mediotejo.net

Sobre este tópico, também o vereador eleito pela ALTERNATIVAcom, Vasco Damas, lembrou posições anteriores do movimento em que defendia “a criação de condições para um maior dinamismo industrial, nomeadamente a requalificação, dinamização e expansão das zonas industriais de Alferrarede, Pego e Tramagal, assim como a criação de ecossistemas empreendedores, onde se instalem indústrias criativas, culturais, tecnológicas, turísticas e recreativas, em que a especialização e a diversificação industrial se combinem estrategicamente”.

O ALTERNATIVAcom tem apontado “a falta de investimento e promoção das zonas industriais, o que, em nosso entender, explica muito da debilidade económica do concelho”, considerando que “as empresas instaladas nas zonas industriais, atraídas por preços de instalação, condições de acesso e benefícios fiscais (que já não se diferenciam dos oferecidos por parques e zonas industriais de outros municípios), têm visto as suas expetativas goradas por uma gestão amadorística destas infraestruturas, onde sobra em indisponibilidade, negligência e desinteresse o que falta em diálogo, conservação e melhoramentos”.

No diagnóstico feito ao parque industrial do concelho, o movimento regista “problemas de acessos, manobrabilidade, pavimentação, drenagem, sinalização horizontal e vertical, estacionamento, limpeza, eliminação de ervas, assim como dificuldades com comunicação e negociação, burocracia e demoras injustificadas, planeamento e captação de investidores, serviços partilhados de apoio, estudos de impacto social e ambiental, etc”.

Defende ainda Vasco Damas e o movimento que encabeça que “para que as zonas industriais de Alferrarede, Pego e Tramagal não sejam meros ‘depósitos’ de empresas, importa que se assuma uma efetiva orientação para o mercado e resposta às necessidades dos investidores, reduzindo os custos de contexto, melhorando as infraestruturas e aproveitamento das respetivas fontes de financiamento”.

O vereador considera ainda ser “essencial que o Parque Industrial de Abrantes faça parte de uma Associação de Parques Industriais”, fazendo paralelismo com o facto de o Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia ser membro e dirigente da Associação Portuguesa de Parques Industriais (APPE), através da Associação Portuguesa de Parques de Ciência e Tecnologia (Tecparques), e referindo haver interesse em conhecer melhor essa dinâmica.

Vasco Damas questionou também sobre o futuro e que planos existem para “a institucionalização, requalificação, dinamização e expansão do Parque Industrial de Abrantes, assim como para a criação e instalação de ecossistemas empreendedores, onde se instalem indústrias criativas, culturais, tecnológicas, turísticas e recreativas”.

Parque Industrial na zona norte, em Abrantes. Créditos: CMA

O vereador do ALTERNATIVAcom questionou ainda se já foi obtido o estatuto de “Zona Empresarial Responsável” para o Parque Industrial de Abrantes (zonas industriais de Alferrarede, Pego e Tramagal) e que vantagens e benefícios foram obtidos, bem como pediu esclarecimento sobre o procedimento especial “Via Verde” do Investimento Estruturante, se foi implementado ou não e quais os resultados obtidos.

Perante as diversas abordagens, Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara Municipal de Abrantes, solicitou que as questões lhe fossem encaminhadas por escrito, demonstrando dificuldade em conseguir responder a todos temas e perguntas colocadas, e tendo inclusive solicitado a Vasco Damas que lhe explicasse o que seria uma Zona Empresarial Responsável.

Quanto à questão da pandemia enquanto “desculpa”, Manuel Jorge Valamatos apelidou essa expressão como “irresponsabilidade para quem exerce aqui funções de responsabilidade, não é uma desculpa estafada”.

“Tivemos mais de dois anos num processo de pandemia muito duro, é evidente que eu sei que houve muita gente que não mexeu uma palha para nada. Agora, houve muita gente, desde logo os profissionais de saúde e outros, e bombeiros, e forças de segurança, e muita gente que trabalhou de forma muito dura. É um adjetivo muito pouco digno, sobretudo dirigido a quem sofreu imenso com a pandemia ou quem representa uma comunidade que sofreu imenso com a pandemia. Perdemos muitas vidas (…) Acho que temos de ter aqui algum sentido de solidariedade (…)”, respondeu.

“Não se pode ter o melhor dos dois mundos (…) Não podemos querer ter algo que puxe pelas empresas, algo que crie condições para as empresas se poderem ali incubar, e depois não investirmos lá. O Município investe em cultura, em desporto, e temos que investir na economia. É investir no Parque de Ciência e Tecnologia, é investir nas nossas zonas industriais”, notou.

Zona industrial de Tramagal. Foto: DR

Sobre a disponibilidade de lotes na zona industrial de Abrantes, o autarca referiu que ainda existem lotes disponíveis, mas que muitos outros são terrenos privados que ainda terão de ser negociados para efeitos de expansão daquela área. Por outro lado salientou que a autarquia tem que ir percebendo o tipo de empresas e a procura que existe.

“Há três lotes na zona industrial norte que não têm projeto nenhum neste momento, e depois há nove que estão em processos de negociação. Uns em processos de concretização, outros estão apenas em fase inicial de apresentação do programa. Quer na zona norte, quer na zona sul da zona industrial de Abrantes ainda temos lotes disponíveis e estamos a acompanhar e negociar porque os terrenos envolventes são privados, e é preciso construir infraestruturas (…) Mas depois também preciso com as entidades externas negociar com a tutela no sentido de transformas essas zonas em áreas de desenvolvimento industrial. Porque alguns lotes depois da A23 colidem com questões de REN e RAN. É todo um trabalho um trabalho que temos vindo a fazer há muito tempo”, explicou.

O presidente de Câmara disse estar em sintonia com os vereadores de oposição quanto à consolidação das zonas industriais, e adiantou que a autarquia está “a tentar construir verdadeiramente uma zona formal industrial [no Pego]” pois apesar de ter várias empresas instaladas e investimentos “não está ainda completamente definida”. Manuel Jorge Valamatos reconheceu ainda, conforme o indicado por Vítor Moura, que o ramal ferroviário que antes servia a Central Termoelétrica do Pego para a produção a carvão, tem “um potencial imenso” mas que é propriedade privada. “Quem nos dera que fosse nosso”, assumiu.

O edil abrantino terminou a sua intervenção referindo que a autarquia está a trabalhar com operadores que têm intenção de se instalar no concelho, indicando que só falará “quando as coisas estiverem concretizadas”, indicando não querer criar especulação.

“Quando as coisas estiverem feitas e a andar, todos saberão. Estamos a trabalhar muito, de forma intensa, para que as coisas possam correr bem. Precisamos das zonas industriais, de investidores e criação de postos de trabalho, como o pão para a boca. Precisamos todos, diria, de uma forma geral, o país precisa disso”, concluiu.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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