Laura Agostinho ainda não teve tempo para perceber verdadeiramente a dimensão do que conseguiu em Rieti. A velocista da Academia Susana Estriga Sport regressou na segunda-feira a Portugal depois de estabelecer um novo recorde nacional sub-18 dos 200 metros, com 24,03 segundos, uma marca que apagou dos livros um máximo que resistia desde 1988. Mas, para a atleta abrantina, a ficha ainda está lentamente a cair.

"Cheguei na segunda de manhã e ainda tenho aproveitado para descansar um bocadinho. Acho que só agora é que vai começando a cair a ficha. Lá ainda estávamos completamente focados no campeonato e quase desligados de tudo o resto", conta ao mediotejo.locais.net/, durante a entrevista dada já em Abrantes, no jardim do castelo, onde esteve acompanhada pela treinadora e mentora, Susana Estriga.

Os parabéns começaram a chegar ainda em Itália, logo depois da corrida das eliminatórias. A quantidade de mensagens foi tal que a jovem de 16 anos brincava com os colegas da seleção, dizendo que parecia estar a fazer anos. “Respondia a umas mensagens e apareciam logo mais dez, mais vinte, mais trinta. Era impossível responder a toda a gente”, lembra, entre risos.

Havia, porém, um objetivo que Laura guardava apenas para si. Além da qualificação para as meias-finais, sonhava bater um recorde nacional que resistia há 38 anos, mas preferiu não partilhar essa meta quase com ninguém.

“Era um objetivo que praticamente não partilhei com ninguém. Acho que só falei disso com a minha mãe. Não queria criar expectativas. Se não conseguisse, também não queria que ninguém soubesse.”

Laura Agostinho e a treinadora Susana Estriga. Foto: mediotejo.locais.net/

Só nos últimos metros da corrida, Laura percebeu que esse sonho podia tornar-se realidade.

“Tenho sempre o hábito de olhar para o cronómetro quando estou perto da meta. Faltavam cerca de dez metros e vi que ainda estava nos 22, 23 segundos. Pensei: ‘Queres ver?’. Quando cortei a meta e apareceu o 24,03 percebi logo que tinha conseguido.”

O anterior recorde nacional Sub-18 pertencia a Lucrécia Jardim desde 20 de agosto de 1988 e estava fixado nos 24,05 segundos.

A reação ficou imediatamente estampada no rosto de Laura e eternizada nas fotografias da chegada.

“Foi uma sensação inexplicável. Acho que o sonho de qualquer atleta é um dia bater um recorde nacional. Depois procurei logo a minha treinadora e os meus pais. Queria perceber se eles estavam a ver o mesmo que eu”, recorda, entre sorrisos.

Apesar da natural felicidade pelo recorde, Laura lembra que os objetivos definidos para a competição já tinham sido alcançados.

“O primeiro era conseguir a convocatória para o Europeu. Depois queria chegar às meias-finais. Sabia que era capaz, mas nunca sabemos como corre uma estreia internacional. O recorde apareceu depois.”

Vestir pela primeira vez a camisola da seleção portuguesa tornou tudo ainda mais especial.

“É sempre um orgulho representar Portugal. Conseguir fazê-lo pela primeira vez, chegar às meias-finais e terminar em 12.º lugar da Europa, entre 40 atletas, acabou por superar aquilo que imaginava.”

Outra das agradáveis surpresas aconteceu fora da pista. Laura encontrou uma seleção portuguesa particularmente unida, composta por 33 atletas, onde rapidamente se criou um espírito de grupo.

“Pensava que se calhar iam existir grupos mais fechados, mas dávamo-nos todos muito bem. O apoio entre todos era enorme. Depois do primeiro dia já estava rouca de tanto puxar pelos outros”, conta, ainda com a voz afetada.

Mas antes de chegar aos 24,03 segundos houve um momento que poucos imaginaram. Ainda durante o aquecimento, a tensão acumulada acabou por falar mais alto.

“A Laura estava extremamente nervosa. Chegou a vomitar antes da corrida”, revela Susana Estriga. A treinadora, porém, não se alarmou. Conhece demasiado bem a atleta para saber que aquela descarga emocional podia até jogar a seu favor.

“Quando ela tem este tipo de comportamento acaba por relaxar. Pelos últimos treinos eu sabia que estava muito bem. Tecnicamente estava a correr muito bem, os apoios estavam fortes e eu tinha a certeza de que ia fazer uma boa marca. Não pensava era que fosse tão boa.”

“Agora é tudo ou nada”, pensou antes da partida

Naqueles segundos que antecedem o tiro de partida, Laura admite que tudo se resume a controlar o nervosismo e a confiar no trabalho desenvolvido ao longo da época.

“É pensar que agora é tudo ou nada. Não há tempo para pensar que não consigo. Tenho de acreditar que vou dar o meu melhor. Tenho de mostrar porque é que estou aqui. Tenho de justificar o trabalho da minha treinadora, a viagem dos meus pais e tudo aquilo que fizemos até chegar aqui.”

Depois do disparo e da partida dos blocos, praticamente deixa de existir espaço para pensar.

“Os primeiros cem metros acontecem quase automaticamente. É tudo tão treinado durante o ano que nem conseguimos pensar. Só depois, quando o cansaço começa a aparecer, é que começamos a ouvir quem está a chamar por nós.”

Naquele dia, porém, houve um momento em que percebeu que aquela podia ser a corrida da sua vida. “Saí da curva e pensei que tinha de ser aquela a corrida da minha época.”

Laura Agostinho regressa do Europeu Sub-18 com recorde nacional nos 200 metros e novos sonhos. Foto: mediotejo.locais.net/

Da bancada, Susana Estriga viveu a prova com uma intensidade semelhante. “Ela faz uma curva extraordinária e entra na reta com três ou quatro metros de vantagem. Eu só pensava: ‘Aguenta, aguenta, aguenta’.”

A treinadora tinha tentado filmar a corrida, mas o calor de quase 40 graus acabou por vencer a tecnologia.

“Quando o starter disse ‘On your marks’, o telemóvel entrou em sobreaquecimento e desligou-se. Não gravei nada. Vivi aqueles segundos apenas a olhar para a pista.”

Cinco anos a construir um recorde

Para Susana Estriga, o recorde não começou em Itália. Começou em outubro de 2021, quando Laura apareceu pela primeira vez num treino orientado por si no Sporting de Abrantes, numa altura em que a Academia Susana Estriga Sport ainda não existia.

Numa publicação divulgada após o Europeu, a treinadora recordou que bastaram poucas sessões para perceber que estava perante uma atleta especial, destacando-lhe três características fundamentais: “talento, foco e ambição”.

Ao longo destes cinco anos, explica, o objetivo nunca foi procurar resultados imediatos. Enquanto muitos optam por especializar precocemente os jovens atletas para obter sucesso rápido, Susana Estriga seguiu o caminho inverso, privilegiando uma formação multidisciplinar, respeitando o crescimento físico e psicológico da atleta, prevenindo lesões e adiando a especialização até existirem bases suficientemente sólidas para atingir o alto rendimento.

“O recorde nacional é consequência de cinco anos de trabalho diário, de planeamento rigoroso, de paciência e de confiança num projeto iniciado em 2021”, escreveu.

Para Susana Estriga, o recorde de Laura Agostinhonão começou em Itália. Começou há cinco anos a ser trabalhado. Foto: mediotejo.locais.net/

Na entrevista ao mediotejo.locais.net/, recorda que nem sempre o percurso foi fácil. Um dos momentos mais difíceis aconteceu na época passada, quando Laura falhou a convocatória para o Campeonato Ibérico de provas combinadas.

“Foi uma derrota das duas. A Laura estava muito nervosa e não conseguiu estar ao nível que esperávamos. Tivemos de redefinir objetivos e estratégias.”

Uma dessas decisões passou precisamente pela aposta mais consistente nas provas de velocidade.

“Percebemos que, pelas características dela, os 100 e os 200 metros seriam as provas onde poderia atingir marcas mais fortes. Este ano fizemos um trabalho muito específico para os 200 metros e acabou por resultar muito bem.”

Uma viagem que valeu cada euro

Se Laura viveu a corrida dentro da pista, Susana Estriga fez questão de a acompanhar em Itália, apesar de não integrar oficialmente a comitiva portuguesa.

A viagem acabou por ser oferecida pelo companheiro, João, como prenda de aniversário, permitindo-lhe deslocar-se até Rieti. As restantes despesas da deslocação ficaram igualmente a seu cargo.

“Fiquei desiludida por não ter sido convocada pela Federação para acompanhar a atleta. Acho que o trabalho desenvolvido justificava outra atenção.”

Hoje, garante que nunca se arrependeu do esforço financeiro, num momento que acabou por superar todas as expectativas.

Depois de acompanhar Laura Agostinho até à zona da partida, Susana Estriga assistiu à corrida a partir da bancada, posicionada junto aos 200 metros. Viu a atleta sair da curva “com três ou quatro metros de avanço” e só pensava: “Aguenta, aguenta”.

Sem conseguir perceber o tempo final nem confirmar o desfecho da corrida, foi o anúncio do speaker que lhe revelou o feito. “Ouvi dizer ‘National Record!’ e comecei aos saltos. Foi uma sensação brutal”, recorda, descrevendo aquele instante como a recompensa de cinco anos de trabalho desenvolvido lado a lado com a atleta.

Laura Agostinho. Foto: DR

“Se não tivesse ido, acho que me ia crucificar para o resto da vida. Bater um recorde nacional que durava há 38 anos é um momento histórico e eu precisava de estar presente.”

O futuro começa agora

A marca de 24,03 segundos valeu também os mínimos para os Mundiais de sub-20 deste ano, embora Laura não possa integrar a equipa portuguesa devido à política federativa de participação naquele escalão. A próxima temporada marcará, contudo, a sua entrada definitiva em sub-20, passando o Campeonato da Europa de 2027 a assumir-se como o grande objetivo imediato.

“Agora vou descansar um bocadinho. Depois voltamos ao trabalho e o grande objetivo passa por voltar a integrar a seleção nacional.”

Os Jogos Olímpicos também fazem parte dos sonhos da jovem velocista, embora reconheça que esse continua a ser um objetivo particularmente exigente para uma atleta portuguesa da velocidade.

“Acho que qualquer atleta sonha com isso. Em Portugal é muito difícil, mas é um objetivo de longo prazo.”

Fora das pistas, Laura continua igualmente focada na escola. Quer seguir Medicina e admite que o estatuto de alto rendimento, que poderá alcançar graças aos resultados obtidos, poderá facilitar a candidatura ao ensino superior.

Aos jovens que hoje a olham como um exemplo, deixa uma mensagem simples, mas construída com a experiência destes cinco anos.

“É preciso acreditar em nós, confiar no treinador e manter o foco. Há dias em que não apetece treinar. Eu própria já chorei porque não me apetecia. Mas é precisamente nesses dias que se faz a diferença entre um atleta bom e um atleta muito bom.”

Laura Agostinho regressa do Europeu Sub-18 com recorde nacional nos 200 metros e novos sonhos. Foto: mediotejo.locais.net/

É precisamente assim que olha para os 24,03 segundos que mudaram a história do atletismo português.

“Neste momento é o momento mais importante da minha carreira. Mas espero que, daqui a muitos anos, seja apenas lembrado como o início de uma história muito maior.”

Laura entra para o top 6 nacional absoluto dos 200 metros

Entretanto, Susana Estriga destacou que a marca de 24,03 segundos alcançada por Laura Agostinho em Rieti valeu-lhe não só o recorde nacional de sub-18, mas também a entrada direta para o 6.º lugar do ranking nacional absoluto dos 200 metros, um feito particularmente expressivo tendo em conta que a velocista abrantina tem apenas 16 anos e compete ainda no escalão de formação.

A treinadora sublinha que o resultado confirma “o enorme potencial da Laura e do trabalho desenvolvido pela Academia Susana Estriga Sport”, apontando já o próximo grande objetivo: alcançar os mínimos para o Campeonato da Europa de Sub-20, fixados em 23,95 segundos.

Para isso, considera essencial que a atleta possa competir em meetings internacionais, admitindo que as características das pistas nacionais e os limitados recursos financeiros de um clube de pequena dimensão tornam esse desafio mais difícil.

“Estamos na luta”, conclui Susana Estriga, deixando claro que o recorde nacional não representa um ponto de chegada, mas apenas mais um passo num percurso que continua a ser construído.

Laura Agostinho e Susana Estriga apontam agora baterias para o apuramento ao Europeu sub-20, a disputar em 2027. Foto: mediotejo.locais.net/

Além das inúmeras felicitações de amigos, familiares e entidades desportivas, na reunião de executivo realizada na terça-feira, o presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, felicitou a atleta Laura Agostinho pelo novo recorde nacional de sub-18 nos 200 metros, alcançado nos Campeonatos da Europa da categoria, em Itália, destacando o seu percurso, dedicação e potencial no atletismo nacional.

O autarca estendeu ainda os parabéns à Academia Susana Estriga, à família e a todos os que têm acompanhado a evolução da jovem atleta.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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