Painel da 1.ª Conferência “Heróis da Fruta”, que reuniu especialistas e decisores para debater a promoção de hábitos alimentares saudáveis e a prevenção da obesidade infantil. Foto: APCOI

O distrito de Santarém registou uma evolução positiva nos hábitos alimentares das crianças que participaram no programa “Heróis da Fruta”, com um aumento de 9,8 pontos percentuais no consumo diário de fruta e hortícolas durante as cinco semanas de intervenção. Os resultados constam do relatório de monitorização do ano letivo 2024/2025, elaborado pelo Instituto de Saúde Ambiental (ISAMB) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), divulgado no âmbito da primeira Conferência “Heróis da Fruta”, promovida pela Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI).

A investigação analisou os resultados de 583 crianças de 32 turmas do distrito de Santarém, tendo identificado um aumento estatisticamente significativo do consumo diário de fruta e hortícolas, de 85,4% para 95,2%, um valor superior à média nacional de 85,3% registada no final da intervenção.

No Médio Tejo, a análise por concelho revela evoluções distintas. Em Abrantes, a percentagem de crianças que consumiam diariamente fruta e hortícolas na escola passou de 74,9% para 98,2%, um aumento de 23,3 pontos percentuais. Em Torres Novas, subiu de 84,4% para 100% e em Vila Nova da Barquinha de 83,3% para 100%, enquanto no Entroncamento os valores se mantiveram nos 100%.

Em Tomar, pelo contrário, registou-se uma descida de 80,2% para 63,6%. Os investigadores não apresentam uma explicação específica para esta variação, sendo necessário ter em conta que os dados municipais dizem respeito apenas às turmas analisadas e não representam a totalidade das crianças de cada concelho.

Outro dos indicadores do distrito de Santarém mostra que 64,2% das crianças analisadas, correspondentes a 374 alunos, experimentaram pelo menos uma fruta ou hortícola que nunca tinham provado. No consumo diário de lanches considerados saudáveis, a percentagem passou de 67,2% para 77,2%, embora esta variação não tenha atingido significância estatística.

Programa já envolveu mais de um milhão de crianças

Os resultados científicos foram destacados na primeira Conferência “Heróis da Fruta”, que reuniu mais de 500 participantes, entre médicos, nutricionistas, investigadores, professores, autarcas e outros decisores políticos de todo o país.

O encontro assinalou os 15 anos do programa, criado em 2011, que já envolveu mais de um milhão de crianças portuguesas e procura incentivar hábitos alimentares saudáveis através de atividades lúdicas desenvolvidas em escolas do pré-escolar e do 1.º ciclo do ensino básico.

Conferência “Heróis da Fruta” reuniu especialistas e decisores para debater a promoção de hábitos alimentares saudáveis e a prevenção da obesidade infantil. Foto: APCOI

A investigação nacional relativa a 2024/2025 analisou os resultados de 11.174 crianças, distribuídas por 578 turmas de 308 estabelecimentos de ensino, selecionados entre os participantes que concluíram os formulários de monitorização e cujos dados foram considerados válidos.

A nível nacional, o consumo diário de fruta e hortícolas nas escolas passou de 78,2% para 85,3%, enquanto a percentagem de crianças que consumiam lanches saudáveis aumentou de 66,4% para 83,5%. Mais de metade dos alunos analisados, 53,7%, experimentaram pelo menos uma fruta ou hortícola nova durante o programa.

Segundo a investigadora Raquel Martins, do ISAMB/FMUL, cerca de 40% das crianças adquiriram o hábito regular de consumo de fruta até à quarta semana, o que permitiu reduzir a duração inicial da intervenção de 12 para cinco semanas.

A investigadora destacou ainda os resultados entre crianças de famílias em situação de maior vulnerabilidade socioeconómica, nomeadamente as abrangidas pelos escalões A e B da ação social escolar, nas quais o consumo regular de fruta atingiu 64% no final do estudo apresentado na conferência.

Para Mário Silva, presidente da APCOI, a prevenção da obesidade infantil deve assentar numa abordagem que privilegie a inclusão, a motivação e a criação de ambientes favoráveis à alimentação saudável, em vez da culpabilização das crianças e das famílias.

“O objetivo da APCOI com o projeto Heróis da Fruta é tornar a ingestão diária de hortofrutícolas a opção mais fácil, económica e apelativa nas escolas, através de uma metodologia lúdica de apenas 5 a 15 minutos diários baseada em Replicar, Repetir e Recompensar”, afirmou.

Projeto-piloto levou 87% das crianças a experimentar novos alimentos

Um dos principais temas da conferência foi a apresentação dos resultados do projeto-piloto “Heróis da Fruta 2.0”, desenvolvido no ano letivo 2025/2026 na freguesia da Ajuda, em Lisboa, no âmbito da iniciativa internacional Cities for Better Health.

A experiência, realizada em parceria com a APCOI, o ISAMB, a Junta de Freguesia da Ajuda e a empresa Novo Nordisk, incluiu a distribuição semanal de cabazes de fruta, procurando ultrapassar barreiras económicas ao acesso a uma alimentação saudável.

De acordo com os resultados apresentados, o projeto conseguiu uma adesão de 90% das escolas da freguesia e levou 87% das crianças a experimentar novos frutos e hortícolas. A Junta de Freguesia da Ajuda anunciou que continuará a apoiar financeiramente a iniciativa no ano letivo 2026/2027.

O exemplo foi apresentado como um modelo que poderá ser adaptado a outros territórios, através de parcerias entre autarquias, estabelecimentos de ensino, instituições científicas e entidades privadas.

Autarquias têm papel determinante na alimentação escolar

O papel dos municípios na promoção de hábitos alimentares saudáveis foi outro dos temas em debate. Segundo o relatório de monitorização, 68,6% das escolas públicas analisadas para este indicador tiveram acesso gratuito a fruta ou hortícolas, sendo as autarquias locais a principal fonte de financiamento identificada pelos professores, assegurando a oferta em 75,9% das turmas com acesso gratuito.

No distrito de Santarém, seis dos dez estabelecimentos de ensino abrangidos por esta análise específica, correspondentes a 60%, disponibilizavam gratuitamente fruta ou hortícolas aos alunos.

Painel da 1.ª Conferência “Heróis da Fruta”, que reuniu especialistas e decisores para debater a promoção de hábitos alimentares saudáveis e a prevenção da obesidade infantil. Foto: APCOI

A conferência abordou também os custos da obesidade para o Serviço Nacional de Saúde. José Silva Nunes, endocrinologista e presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, estimou em 1,15 mil milhões de euros anuais o impacto financeiro da doença, referindo que apenas 1% desse montante corresponde ao tratamento direto da obesidade, enquanto os restantes 99% estão associados às complicações.

“A obesidade é uma doença crónica por si só e precisa de ser tratada a montante antes do surgimento das complicações”, defendeu.

Também Maria João Gregório, diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde, destacou a importância da colaboração entre instituições públicas e organizações da sociedade civil na concretização de medidas de prevenção.

A APCOI pretende que os resultados apresentados contribuam para alargar o programa a mais municípios e escolas, reforçando a prevenção da obesidade infantil através da educação alimentar e de políticas que facilitem o acesso a alimentos saudáveis.

O programa “Heróis da Fruta” desenvolve-se ao longo de cinco semanas, com desafios e atividades pedagógicas diárias, estando disponível para estabelecimentos de ensino públicos e privados. Mais informações podem ser consultadas em www.heroisdafruta.com, enquanto o relatório científico está disponível em heroisdafruta.com/relatorio2025.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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