Há peças que começam muito antes da roda de oleiro. Algumas começam numa ideia, outras numa aprendizagem antiga. No caso de Sandra Magano Gaspar, o projeto que hoje tem nome, oficina e clientes começou também numa decisão: deixar de esperar. “Em vez de esperar que algo venha ter comigo, fiz acontecer”, contou esta quinta-feira, em Abrantes, durante a cerimónia em que recebeu a distinção de Empreendedora 50+ da Região Centro 2026.
Aos 53 anos, Sandra decidiu avançar por conta própria. Tinha formação de formadora, os requisitos necessários para iniciar a atividade e, sobretudo, vontade. Dessa vontade nasceu a Magano Ceramics, marca através da qual produz peças artesanais de cerâmica, trabalha olaria de roda e cerâmica figurativa e desenvolve também aulas, workshops e formação.
Aos 55 anos, olha para o caminho percorrido com a noção de que trabalhar por conta própria significa, muitas vezes, não ter uma rede de apoio. “Eu sou a minha própria rede de apoio”, afirmou. É também dona do seu tempo, mas isso implica gerir uma atividade que considera fisicamente exigente.
“Nenhuma destas peças aparece com trabalho ligeiro. É tudo muito físico”, explicou, referindo-se não apenas à produção das peças, mas a todo o trabalho inerente a uma atividade desenvolvida sozinha.

Ainda assim, há um retorno que vai além da própria peça acabada. É o momento em que alguém entra em contacto com o seu trabalho e diz que quer fazer uma peça como as suas. “É isso que eu faço, é transmitir aquilo que eu sei fazer”, afirmou Sandra, que encontra no ensino e na partilha uma parte importante do projeto.
A relação com a cerâmica não nasceu aos 53 anos. Começou décadas antes, com formação nas Caldas da Rainha e foi sendo construída ao longo do percurso profissional. A ceramista recordou ter aprendido a área há mais de 30 anos e sublinhou a importância de se manter fiel ao que lhe foi transmitido pelos professores. Foi esse conhecimento acumulado que, mais tarde, serviu de base para uma nova etapa profissional.

A percurso de Sandra foi recordado durante a entrega da distinção, uma iniciativa promovida pela CCDR Centro, que vai já na sétima edição e procura reconhecer pessoas que iniciaram uma atividade empresarial ou empreendedora depois dos 50 anos.
Na abertura da sessão, o presidente da Câmara de Abrantes e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, Manuel Jorge Valamatos, lembrou que o empreendedorismo é frequentemente associado aos mais jovens, mas defendeu que essa visão não deve deixar de fora quem chega a uma fase mais avançada da vida profissional.
“Depois dos 50, há conhecimento, há experiência, há competências acumuladas, há relações construídas ao longo de muitos anos”, afirmou.
Para o autarca, uma das mensagens da iniciativa é precisamente que “aos 50 se começa com tudo aquilo que já se aprendeu”. Esse conhecimento, acrescentou, representa um capital que os territórios devem saber valorizar, criando condições para que as pessoas continuem a criar, investir e empreender.

Manuel Jorge Valamatos associou ainda esta dimensão do empreendedorismo à ideia de envelhecimento ativo, defendendo que esta não deve ser reduzida às questões da saúde, do lazer ou da participação social. “Temos de falar igualmente de trabalho, de economia, de criatividade e de empreendedorismo”, afirmou.
A escolha de Abrantes para acolher a cerimónia teve, para o presidente da Câmara, um significado particular. O evento decorreu no Tagusvalley – Parque de Ciência e Tecnologia, espaço que associou ao conhecimento, inovação, empreendedorismo e ligação às empresas.
O reconhecimento atribuído a Sandra Magano Gaspar tem também uma dimensão coletiva. A iniciativa prevê um prémio de 5.000 euros destinado a instituições de natureza social ou cultural da região Centro.



Sandra escolheu o Grupo de Teatro Palha de Abrantes para receber 4.000 euros. Os restantes 1.000 euros foram atribuídos ao Orfeão de Abrantes, por indicação da CIM do Médio Tejo, entidade parceira que propôs a empreendedora.
“Isto foi completamente inesperado para mim”, afirmou Sandra Gaspar, agradecendo a todos os que contribuíram para que chegasse àquele momento. “Nada disto se faz sozinha. Eu não consegui fazer nada sozinha”, acrescentou.
Família, colegas de curso, amigos e conhecidos fizeram parte, segundo a própria, dos diferentes momentos que ajudaram a construir o percurso que agora foi reconhecido. “Este momento é de facto importante e é um marco para mim”, afirmou.
Mas a partilha não ficou apenas pelas palavras. Sandra destacou duas mulheres que, segundo disse, a têm acompanhado: Maria Fonseca, presidente do Grupo de Teatro Palha de Abrantes, e Elisabete Pereira, presidente do Orfeão de Abrantes.
“Eu tenho muito orgulho em poder partilhar este prémio com duas mulheres maravilhosas que me têm acompanhado”, afirmou.
Teatro e música recebem reconhecimento pelo trabalho desenvolvido na comunidade
Para Maria Fonseca, os 4.000 euros atribuídos ao Grupo de Teatro Palha de Abrantes representam também o reconhecimento do trabalho desenvolvido pela associação.
A presidente do grupo começou por agradecer à CCDR Centro por criar uma iniciativa destinada a distinguir pessoas numa fase da vida em que, afirmou, podem ser consideradas como estando “já no final de carreira” e com pouco para dar. “Todos nós temos muito para ensinar e muito para fazer durante a nossa vida toda”, defendeu.

Sobre Sandra, destacou um percurso feito de trabalho e dedicação, descrevendo a sua atividade como “um faz e refaz” e falando de uma criatividade que, por vezes, a leva a acordar durante a noite com novas ideias para concretizar.
“Tem sido um caminhar nem sempre fácil, árduo às vezes para ela, mas passo a passo tem conseguido”, afirmou.
Maria Fonseca associou ainda o prémio ao trabalho que o Grupo de Teatro Palha de Abrantes tem desenvolvido, particularmente nos últimos anos, e à sua presença na cidade e fora dela.

Já Elisabete Pereira, presidente da direção do Orfeão de Abrantes, destacou o reconhecimento do movimento associativo local e o papel das associações na vida cultural e social de Abrantes e do Médio Tejo.
A dirigente deixou também uma palavra de felicitação a Sandra Magano Gaspar, sublinhando o talento, dedicação e trabalho desenvolvido na área da cerâmica.
O Orfeão aproxima-se dos 100 anos de história e Elisabete Pereira considerou que a distinção representa também uma responsabilidade acrescida para a instituição: continuar a honrar o legado de todos os que dela fizeram parte.


“Este prémio é o reflexo da dedicação, do talento, do compromisso de todos os que, ao longo dos anos, deram a vida ao Orfeão de Abrantes”, afirmou.
No encerramento da cerimónia, o vice-presidente da CCDR Centro, Licínio Carvalho, enquadrou a iniciativa na estratégia regional de promoção do envelhecimento ativo e saudável.
Segundo explicou, o Empreendedor 50+ pretende promover o espírito empresarial e empreendedor entre a população sénior, reconhecer publicamente histórias de vida inspiradoras e sensibilizar para a importância do empreendedorismo sénior e dos incentivos à criação de novas atividades.

A iniciativa é desenvolvida em colaboração com 25 entidades da região Centro, entre associações empresariais, comunidades intermunicipais, IEFP, parques de ciência e tecnologia, Portugal Inovação Social e Turismo Centro de Portugal.
Licínio Carvalho destacou ainda a necessidade de combater o “idadismo”, referindo-se ao estigma associado à idade, e defendeu que a longevidade deve ser encarada também como um ativo económico e social.
Foi nesse enquadramento que apresentou o percurso de Sandra, que trabalhou durante 12 anos no Centro Social do Pessoal do Município de Abrantes, onde ensinou cerâmica a crianças em idade escolar, e colaborou também com a Universidade da Terceira Idade de Abrantes e com o Centro de Recuperação e Integração de Abrantes.
Aos 53 anos, avançou para uma carreira por conta própria.


Hoje, além da produção de peças, tem na oficina um espaço de ensino e partilha. E quer continuar a crescer. Entre as ambições que apontou está a possibilidade de expor o seu trabalho numa rede de espaços, algo que diz já estar a acontecer gradualmente.
“Se eu sou bem-sucedida neste momento, sinto que sou bem-sucedida. Se quero mais, sim, eu quero mais”, afirmou, explicando que procura equilibrar as ambições com aquilo que consegue concretizar.
A cerimónia terminou com uma visita à oficina da Magano Ceramics. O lugar onde o prémio ganha outra dimensão: não apenas uma medalha, mas o reconhecimento de um projeto que nasceu quando Sandra decidiu trocar a espera pela iniciativa e continuar a fazer com as mãos aquilo que aprendeu ao longo de décadas.
