Segundo António Roldão a obra da Praça de Touros da Barquinha iniciou-se em 1 de agosto de 1863 sendo inaugurada em 13 de junho de 1864, assistindo-se na Barquinha à primeira corrida de touros.1
O mesmo autor conta-nos que foi José Filipe Sirgado, tio do conceituado vulto, Dr. Carlos Barral Filipe2, a quem devemos o nome da cerveja “Imperial”, quem edificou a primeira Praça que ainda mantêm o formato original ressaltando as ameias, do lado sul, a representar o Castelo de Almourol. Entre as ameias e os torreões sobressai o frontão bem ao gosto popular. São assim as formas e as cores desta arte que nos define a identidade.
O construtor, José Filipe Sirgado era, à época, dono e senhor das terras que do alto da chã de Nossa Senhora do Reclamador se impunham até aos casais do Paul. A via férrea do Leste, por expropriação do Estado, cortara-lhe a larga propriedade em 1862 e ele pensou, que naquela nesga de sítio onde ainda hoje está edificada, era o local ideal para a feitura de uma praça de toiros.
Era a visão idealista e autónoma de homem pretensamente experiente no ramo dos negócios da vida. Na tal nesga de sítio formalmente apetecida para o efeito foi ali edificada, bem perto da Fonte da Moita, e da ermida de Nossa Senhora do Reclamador.
A Ermida era de tempos medievais, a fonte sofrera obras de beneficiação em 1857, e a linha de caminho de ferro beija as paredes da Praça.
Recordo que em 1862 se iniciou a construção da linha de caminho-de-ferro, linha do Leste, com o nó do Entroncamento, à data concelho de Vila Nova da Barquinha, sendo construída a primeira ponte ferroviária sobre o rio tejo, na Praia do Ribatejo, cujo serviço se iniciou no dia 7 de novembro de 1862 e que permitiu desenvolver o país com o livre acesso de pessoas, bens e mercadorias entre diferentes territórios, inclusive até Espanha.
Naquele local ergueu ele a Praça e nela teve lugar, com pompa e circunstância, no dia 13 de junho de 1864, a primeira corrida de toiros de que há memória …
No ano de 1906 foi a Praça comprada por António Luís da Silva, a Manuel Alves da Silva. Passados dois anos, em 28 de fevereiro de 1908, a praça é doada por António Luís da Silva à Associação Hospitalar do Concelho da Barquinha para receita do seu múnus social e assistencial. Esta Associação em 1921 havia de convolar-se em Santa Casa da Misericórdia da Barquinha, herdeira, portanto, do património aforrado ao longo dos anos por aquela benemérita pessoa coletiva e hoje proprietária deste imóvel.
Sabe-se, e é público e notório, que a Barquinha tem uma forte e enraizada tradição taurina. Ou seja, a tauromaquia está profundamente ligada à história e à identidade da nossa comunidade, o resto é opções do prós e contras!
Transmitem-nos, seguramente, as fontes documentais que ao longo dos tempos foram assinalados os êxitos e os malogros ocorridos na sua Praça de Toiros da Barquinha.
As touradas são consideradas espetáculos de natureza artística e enquadram-se em legislação específica.
Por esta Praça passaram os melhores cavaleiros e forcados de Portugal.
Por outro lado, é curioso é saber que tivemos um Grupo de Forcados Amadores.
Do cartaz acima, de 24 de julho de 1966, constam do cartel publicitário: Gustavo Zenkel, Joaquim Mónica e Dário Venâncio que lidaram 4 touros e 2 novilhos. A Troupe de Charlots Fenómenos do Entroncamento composto por Fanico, Mano e seu Feitor, Banda Cómico-Taurina, atuou durante a lide com duas reses dos Charlots. Os Estrambólicos Taurinos da Barquinha – “EL PERNA LEVE” apresentou e dirigiu a Banda Cómica Taurina “OS BRIOSOS” da Barquinha, que deliciou a assistência com excelentes marcações e alegres números de música. O “EL PERNA LEVE”, barquinhense, e nascido em Elvas, Fausto Lavadinho, um cómico taurino e musical de rara intuição e graça. Foi dos primeiros jazz-bandistas que apareceram na província e que tinha tido enorme sucesso no Carnaval de 1966, em Almeirim. João Cantigas com seu trajo de fadista, colaborou no espetáculo com a sua pública graça.
As pegas ficaram a cargo dos Forcados Amadores de Vila Nova da Barquinha: composto pelo Carlos Panaca (cabo), Eusébio Silva, Fernando Araújo, Joaquim Luís, José Henriques, Fernando Couto, António Curado, Padeiro (Atalaia), Fernando Caixinha e Valente. Coadjuvam a lide os bandarilheiros profissionais Jorge Domingues, Carlos Falcão e Joaquim Lázaro.
A Praça é um dos símbolos da Barquinha e da sua identidade
A alma rural ribatejana foi formatada pela vida campestre da região, ritmada pelos ciclos da agricultura, das vindimas, da azeitona, da criação de gado, etc. que demarcavam, também, as exteriorizações festivas que lhes andavam associadas.
O ribatejano é trabalhador e respeitador das tradições. Os seus símbolos maiores eram, e para muitos ainda são, o touro e o campino, eis os tipos regionais então definidos que se relacionavam com a paisagem agrícola e com a variedade de atividades nela desenvolvidas.
Muitos lavradores ribatejanos tinham a raça brava do Ribatejo ou touros bravos, mas poucos os reservavam às corridas de touros, pois eram sobretudo utilizados no trabalho agrícola. Após a castração e adaptação à canga, apresentavam-se tão eficazes como outros animais de trabalho, sendo particularmente adequados às condições difíceis do Ribatejo, apesar de ser necessário utilizar um maior número de animais. 3
Aqui, no inicio da lezíria ribatejana, reina a trilogia fundamentada no homem (campino), no animal (o touro) e na geografia (a borda d’água) e que outros já tinham começado por sobrevalorizar, através de “um pacto tácito” entre outros três valores – homem, cavalo e toiro – como símbolo de todas as virtudes ribatejanas. 4
Há uma história que encontrei no Arquivo Municipal António Roldão, referente à atividade taurina, digna de ficar para a posteridade: o caso Dr. Reis e Mata. O Dr. Reis e Mata era médico de clínica geral e estomatologista que exercia na Barquinha, no Hospital da Misericórdia e nos Caminhos de Ferro.
Era conhecido como um homem culto, sábio, viajado, humorístico e de grande inteligência. Em 1951 não havia médico veterinário no concelho. A lei obrigava o subdelegado de saúde a substituí-lo. Assim, Reis e Mata, embora não fosse veterinário, viu-se forçado a assumir essas funções cumprindo a velha máxima “Dura lex, sed lex”.
Quando a Santa Casa da Misericórdia da Barquinha organizou uma nova corrida de touros para angariar fundos, o Provedor pediu-lhe que fizesse a inspeção sanitária dos oito touros destinados ao espetáculo taurino. O médico, naturalmente vacilante, procurou explicações junto da Delegação de Saúde. Este atestou que, embora a obrigação não fosse clara, a legislação permitia obrigar essa inspeção ao substituto do veterinário municipal, que no caso era ele, médico de clínica geral, conforme estipulava a lei.
O Dr. Reis e Mata decidiu então cumprir a obrigação à sua maneira: através do humor e da ironia. Em vez de fazer uma real inspeção veterinária, elaborou um divertido e elaborado “atestado sanitário”, afirmando ter examinado, com ironia, os touros do camarote central, munido dos seus “gamelos de teatro”.
No documento, descreve sarcasticamente os animais como perfeitamente saudáveis: tinham bom aspeto, força, audição, sensibilidade às cores, ausência de fadiga e magníficos cornos. Tudo é apresentado com uma linguagem pseudocientífica, misturada com referências literárias, históricas, taurinas e políticas, uma obra de arte hilariante, vide: https://mediotejo.net/a-leges-artis-e-o-licenciamento-de-uma-tourada-na-provincia-por-fernando-freire/
Grandes espetáculos culturais até hoje aqui se realizaram. Vou dar alguns exemplos:
Na foto acima é apresentado o “Julgamento do Bacalhau”, na Praça de Touros da Barquinha. Uma organização do Clube de Instrução e Recreio de Moita do Norte (Ex-Tuna). Foi no dia 9 de abril de 1955. À frente do cortejo participaram três clarins, montados em fulgurantes cavalos, anunciando ao Mundo Inteiro, o grande acontecimento, o “Julgamento do enfadonho bacalhau”. Seguidamente, vinham as testemunhas de acusação e de defesa, a cavalo em feros jericos e teimosos que nem uns burros.
Logo atrás, e formando tudo um luzido e surpreendente cortejo, alumiado por inúmeros archotes, rodavam 9 carros vistosamente ornamentados, transportando cada um em seu carro, o Juiz e o Escrivão, o Delegado, o Advogado de Defesa, os Jurados, os Réus, o Comendador, o Barco de Pescadores, os Ranchos, as Varinas e os Músicos. Este admirável conjunto percorreu as principais ruas da Moita e da Barquinha. Depois apresentou-se na Praça de Toiros, onde foi instalado o Tribunal que julgou e condenou o horrendo bicho, o bacalhau.
Existiram formidáveis debates entre o Delegado e o advogado de Defesa. Desconcertantes depoimentos de testemunhas. Violentas discussões entre a Páscoa e a Quaresma, esta última vestida de luto chorou o seu triste fim de seu adorado bacalhau e do seu reinado. Um espetáculo digno de filme …
Todavia, também muitos eventos culturais por lá passaram:
- Cinema, no princípio do ano cinquenta do século passado. Assim nos informam, detalhadamente, os programas produzidos para o efeito e atração do espetador;
- Teatrais: O “enterro do bacalhau”, já narrado; cenas pelo Grupo de teatro do Agrupamento de Escolas, em junho de 2010 e maio de 2011;
- Eventos carnavalescos: “folias de Carnaval”; espetáculos cómicos e de diversão com famoso músico e barquinhense, Fausto Lavadinho, que ganhou o epíteto de “El perna leve”;
- Concertos musicais: como o fado, como aconteceu com Mariza em 3 de setembro de 2010; Danças com Cavalos, pelo CUR da Moita do Norte e Clube Hípico Margens do Tejo, em 28 de maio de 2016;
- Encontros desportivos como o de 3 de março de 2024, com 1000 atletas na prova integrada nos “3 Rios Trail Trophy”, uma organização do Grupo Cicloturismo Barquinhense”; etc.
Também a Praça foi utilizada para comícios políticos. Recordo dois. Em 27 de janeiro de 1907 com as presenças dos Drs. Bernardino Machado, António José de Almeida e do publicista Brito Camacho, tudo em nome do Partido Republicano em tempos de Monarquia, e em 1974 foi palco de um comício com a participação de Mário Soares e Olof Palme, então primeiro-ministro da Suécia.
No próximo dia 11 de setembro de 2026 a Praça vai reabrir após obras de conservação e manutenção e devidamente pintada.
As obras, renovação de curros, arranjo das ameias, pintura, etc. ficaram a cargo do empresário Luís Pombeiro, gestor taurino também do Campo Pequeno e com familiares na Barquinha. Foi apoiada pelo Município da Barquinha através de um protocolo, de acordo com a deliberação de 11 de junho de 2025 de “atribuição de subsidio à Santa Casa da Misericórdia para obras de conservação e valorização da Praça de Toiros”.5
Sendo o narrador da terra do granito, bem rijo e moreno, como sói dizer a canção beirã, em dia de festa de Touros no Ribatejo, mais precisamente na Barquinha, é rito obrigatório, qual romaria na minha querida Beira-Baixa, acompanhar as ribatejanas convidadas à tourada.
Apesar de não viver tão intensamente o espetáculo taurino, como elas sentem, tenho um enorme prazer de apreciar toda a envolvência do espetáculo, a força do touro, a arte dos atores, a arquitetura da praça, as suas cores e formas e, essencialmente, a vida de um povo e uma cultura que sente a festa brava e agora com uma praça renovada!

FONTES:
1 ROLDÃO, António Luís. Crónicas Históricas II, Ed. Câmara Municipal da Barquinha, 2014
2 Carlos Barral Filipe, natural de Vila Nova da Barquinha, nasceu em 28 de setembro de 1859 e morreu em Lisboa, em 27 de outubro de 1910. Formou-se em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1885, apresentando uma tese sobre a cólica hepática calculosa. Desenvolveu depois carreira como cirurgião no Hospital de São José, onde foi nomeado cirurgião interino em 1887 e definitivo em 1890. Para além da medicina, destacou-se como proprietário da fábrica de cerveja Germânia, em Lisboa, posteriormente transformada na Portugália. A fábrica tornou-se conhecida pela sua cerveja «Imperial», distribuída por Lisboa através de carroças puxadas por mulas. Durante a Primeira Guerra Mundial, a origem alemã associada ao nome e à imagem da Germânia tornou-se problemática. A águia negra que identificava a marca foi retirada e, posteriormente, o próprio nome Germânia desapareceu, dando lugar à designação Portugália, enquanto a produção da cerveja continuou mantendo-se inclusive um técnico alemão para garantir o fabrico. Para a história de Vila Nova da Barquinha, Carlos Barral Filipe, foi médico e empresário de sucesso, um dos impulsionadores e benfeitores da construção do Hospital da Misericórdia da Barquinha.
3 VIANNA, Carlos. A raça brava do Ribatejo, Imp. Ferreira & Oliveira. 1905
4 I Encontro de Cultura Popular do Ribatejo – Livro de Actas. Ed. Município de Vila Nova da Barquinha, maio de 2019
5 Deliberação n.º 369/2025, ata da reunião do Executivo Municipal de 11/6/2025



