É fácil dizer que todos têm lugar. Mais difícil é reparar em quem continua à porta. À porta de uma atividade para a qual não foram criadas condições de participação. De uma oportunidade de trabalho que se perde numa entrevista pouco acessível. De uma conversa onde se fala sobre a pessoa, mas não se procura ouvi-la. A porta pode estar aberta e, ainda assim, alguém ficar de fora.
É aqui que queremos começar. A Perturbação do Espectro do Autismo pode parecer um assunto distante até entrar na nossa família, na nossa sala de aula ou na nossa equipa. Mas a responsabilidade de construir uma comunidade acessível começa antes desse encontro. Começa na disponibilidade para reconhecer que os espaços e as regras que funcionam para nós podem criar dificuldades a outras pessoas.
Que valor tem dizer “pode participar” se não procuramos saber o que torna essa participação possível?
Compreender antes de julgar
Uma criança que se afasta de uma atividade pode precisar de condições diferentes para participar. Uma pessoa que necessita de mais tempo para responder deve poder encontrar esse tempo na conversa. Uma família que pede uma adaptação merece ser escutada antes de ter de justificar, uma vez mais, toda a sua história. Conhecer a palavra “autismo” não basta para compreender estas experiências.
As pessoas com autismo têm percursos, capacidades, interesses e necessidades de apoio diferentes. Nenhuma história representa todas as outras. E aquilo que vemos num momento não nos permite conhecer todo o esforço, todas as dificuldades ou todas as possibilidades de uma pessoa.
Por isso, compreender exige escuta. Exige perguntar, rever certezas e respeitar diferentes formas de comunicação. Exige, sobretudo, envolver as próprias pessoas nas decisões que lhes dizem respeito.
De um dia solidário a um compromisso que permanece
A Academia do Autismo 2300 nasceu desta vontade de aproximar conhecimento e vida quotidiana. O ponto de partida foi o Trail Solidário pelo Autismo, organizado pela ACRESCER – Associação de Pais e Amigos das Crianças com Necessidades Educativas Especiais de Tomar, pelo Trail do Vale e pela Run For Autism Portugal.
A mobilização em torno desta iniciativa deu origem à Academia do Autismo 2300, apresentada publicamente a 12 de setembro de 2026. Uma iniciativa da ACRESCER, apoiada por uma rede informal de 19 parceiros nacionais fundadores, públicos e privados, que nasceu com um compromisso claro: transformar a solidariedade de um dia numa resposta comunitária permanente, aproximando famílias, profissionais e instituições para tornar a inclusão uma prática quotidiana.
O “2300” afirma as raízes em Tomar. É daqui que queremos aproximar famílias, profissionais, instituições e comunidade. E é a partir desta experiência que pretendemos construir um modelo que possa ser adaptado a outros concelhos, com parceiros locais e respostas adequadas a cada território.
A intervenção organiza-se em cinco eixos: Academia Capacita, Academia Família, Academia Conhecimento, Academia Comunidade e Crescer com o Espectro. Une-os o propósito de tornar o conhecimento acessível, desenvolver ferramentas práticas e criar condições para participar, pertencer e crescer.
Esse caminho já inclui iniciativas para famílias, experiências de musicoterapia, ações de sensibilização em associações locais, onde as perguntas da comunidade conduzem a conversa. Estão também em preparação ações de capacitação para escolas, empresas, serviços públicos e profissionais de segurança, socorro e emergência. No horizonte está a criação de uma Sala de Integração Sensorial e ações de comunicação e divulgação de diferentes âmbitos.
Queremos que aquilo que se aprende numa ação possa ser usado no dia seguinte: numa sala de aula, num atendimento, numa ocorrência ou numa reunião de equipa.
Os direitos precisam de chegar à vida
A Carta para as Pessoas com Autismo coloca em evidência a participação nas decisões, o acesso à educação, ao trabalho, à cultura e aos serviços da comunidade. É um enquadramento que nos obriga a olhar para a inclusão ao longo de toda a vida.
Em Portugal, a Lei n.º 41/2026, de 7 de agosto, alterou a Lei de Bases do Sistema Educativo para assegurar a acessibilidade dos estudantes com necessidades educativas especiais em todos os níveis de ensino, incluindo o superior, prevendo adaptações e apoios.
Este avanço legislativo traz-nos uma pergunta concreta: como fazemos chegar esses princípios à experiência de cada estudante?
Uma lei precisa de encontrar profissionais preparados, procedimentos adequados e recursos. A responsabilidade das instituições e do Estado tem de se traduzir em condições reais. O trabalho comunitário pode contribuir para esse caminho, aproximando pessoas e conhecimento, identificando barreiras e promovendo colaboração.
A inclusão ganha sentido quando se torna possível estudar, trabalhar, escolher e participar de uma forma ativa.
Uma rubrica para pensar e agir connosco
É com esse propósito que iniciamos esta rubrica no mediotejo.net. Escrevemos a partir de duas perspectivas que se encontram: a da Psicologia e a de um pai envolvido na construção de uma resposta comunitária. Queremos aproximar rigor e experiência, mantendo espaço para as vozes das próprias pessoas autistas.
Falaremos de comunicação, família, escola, experiências sensoriais, relações, trabalho e vida adulta. Procuraremos esclarecer dúvidas e trazer possibilidades de ação, com a consciência de que cada situação merece atenção própria.
Aos leitores, deixamos um desafio: olhem para um espaço que vos seja familiar. A escola, a empresa, o clube ou a atividade que organizam. Façam perguntas a quem encontra dificuldades para participar. Escutem essa pessoa. Escolham uma barreira que possam ajudar a remover.
O que pode mudar, a partir de hoje, no lugar onde cada um de nós faz a diferença?
