É um pequeno grande mistério que ainda ninguém conseguiu explicar com clareza. Desde 2006 que os grupos com proveniência na Coreia do Sul tem figurado nas tabelas dos países que mais visitam o Santuário de Fátima. A 9 de março, no V Workshop Internacional de Turismo Religioso, o mediotejo.net tentou perceber junto dos operadores turísticos a que se deve este interesse de um país em que cerca de metade da população não se identifica com nenhuma religião em particular. Há questões de índole religiosa, mas também o interesse de um povo cosmopolita em busca da Europa e da sua espiritualidade.
Estavam inscritos sete representantes da Coreia do Sul no Workshop, num âmbito de 130 operadores em todo o certame. Com algumas dificuldades na comunicação, o mediotejo.net conseguiu conversar um pouco com Park Jong Sun, cujo cartão de visita indicava ser “assitant manager” da empresa KRT. Quisemos saber o que motiva os coreanos a deslocaram-se a Portugal, e a Fátima, cada vez com mais afluência na última década. A resposta abre caminho a novas abordagens à realidade de Fátima, muito além da religião.
“Nos últimos 30 anos os coreanos têm visitado a França, a Itália, a Europa central. Mas nos últimos 10 anos têm-se voltado para o leste da Europa e agora recentemente começaram a visitar Espanha e Portugal.”, explicou o responsável por meio de uma tradutora. “Não há muita gente interessada propriamente em Fátima, mas sobretudo com interesse em Portugal”, salientou
“Há pessoas que visitam Fátima por motivos religiosos, mas os turistas têm interesse sobretudo no Porto e em Lisboa”. Por outro lado, “sente-se atualmente algum receio em visitar França ou a Alemanha. Em Espanha e Portugal os turistas coreanos sentem-se mais seguros, por isso optam por vir “, adiantou.
Questionado sobre se os coreanos conhecem o Santuário de Fátima, Park Jon Sun comentou que “a não ser os católicos, os coreanos não têm grande interesse em Fátima”, representando os primeiros cerca de 10% da população daquele país.”O interesse será mais no profetismo de Fátima”, em torno do segredo que anunciou o fim da Primeira Guerra Mundial, a conversão da Rússia e o assassinato do Papa.
Em 2016 o Santuário de Fátima registou 4014 peregrinos, em 143 grupos, provenientes da Coreia do Sul, encontrando-se o país em 7º lugar entre as peregrinações estrangeiras. Em 2006, quando entrou pela primeira vez no TOP10 do Santuário, tinha registado 1246 peregrinos, em 47 grupos.
Para perceber melhor esta tendência, o mediotejo.net contactou a Embaixada de Portugal na Coreia do Sul, que deixa um retrato semelhante mas mais contextualizado desta realidade. Em primeiro lugar, salienta a Embaixada via email, “é necessário contextualizar a realidade da Coreia do Sul em termos de religiões predominantes: o cristianismo e o budismo, sendo que mais de 30% da população é cristã e de entre a qual mais de 13% é católica”.
“Por outro lado, o grau formativo elevado deste povo, permite-lhes deter um conhecimento mais ou menos aprofundado das dinâmicas de desenvolvimento turístico dos destinos à escala global, incluindo naturalmente Portugal, cujo destino está hoje indiscutivelmente na “moda” na Coreia do Sul”, salienta.
Continua referindo que “também é de todos conhecido o esforço que as entidades locais, como é um bom exemplo a ACISO, têm vindo a encetar nos últimos anos, mesmo não raras vezes contra o preconceito de que se trataria de um produto turístico menos “interessante” para a economia nacional. Contudo, os números conseguiram ultrapassar tal barreira psicológica”.
“Há ainda o fator ligado ao forte peso que as paróquias e igrejas católicas na Coreia detêm em termos de motivações de viagem, aliás à semelhança do que se passa um pouco por todo o mundo. Tais instituições coreanas, em conjugação com as suas redes próprias em Espanha e França, promovem cada vez mais circuitos integrados. É, assim, natural que haja um interesse crescente deste povo por santuários marianos, como é o caso de Fátima”, explica.
“Há ainda a salientar que tal crescimento de turistas coreanos para Fátima também é fruto do crescimento exponencial de turistas coreanos a Portugal. De acordo com o INE, as dormidas de sul coreanos em estabelecimentos hoteleiros, aldeamentos, apartamentos turísticos e outros, a nível nacional, não para de crescer: 17.216 em 2009, 86.128 em 2014 e 110.751 em 2015”, frisa.
Questionada ainda sobre o perfil do turista coreano que visita Portugal e Fátima, a Embaixada admite que “não existem dados desagregados ou estudos sobre o perfil do turista coreano na Europa que nos permitam obter informação adequada a responder a esta questão. Não obstante, é notório que muitos dos pacotes turísticos existentes para a Europa são em pluridestino, portanto com motivações turísticas diversas. Os pacotes que incluem Portugal, englobam geralmente Espanha, ou Espanha e Marrocos. Deste modo, há objetivamente um padrão que nos leva a acreditar que não se tratam exclusivamente de turistas religiosos, apesar de existirem objetivamente turistas coreanos cuja principal motivação é visitar locais de índole religiosa”.
O Santuário de Fátima é conhecido dos coreanos em geral e dos católicos em particular. “Acresce ainda que a visita do Santo Padre tem originado junto desta Delegação um crescimento importante de pedidos de informação sobre Fátima e Portugal, por parte dos profissionais das viagens e turismo e pelo próprio cidadão comum”, informa.
A Coreia do Sul tem cerca de 50,3 milhões de habitantes.
