Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as segundas-feiras, de forma alternada. “O Papalagui”, de Erich Scheurmann, é a sugestão apresentada esta semana por Sónia Lourenço, da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes. Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Escrito por Erich Scheurmann, que nasceu em Hamburgo, em 1878, e morreu em Armsfeld, em 1957, O Papalagui reúne uma coleção de discursos de um chefe aborígene samoano de Tiavéa (na ilha de Upolu, Oceano Pacífico).

O Papalagui é um termo samoano que traduzido literalmente significa aquele que furou o céu, uma alusão ao homem branco, ou, ao europeu. De mencionar que o primeiro missionário europeu a desembarcar em Samoa chegou num veleiro branco e os nativos, vendo o veleiro de longe, pensaram que as velas brancas fossem um buraco pelo qual, furando o céu, o europeu tinha aparecido.

Publicado em 1920, este livro apresenta uma visão sobre o europeu no período anterior à Primeira Guerra Mundial, que resultou de uma viagem à Europa feita pelo chefe aborígene samoano de Tiavéa. Erich Scheurmann teve contacto com a tribo e reuniu as considerações do chefe sobre várias questões, retratadas em cada um dos capítulos que constituem o livro.

No primeiro capítulo – De como o Papalagui cobre as suas carnes com inúmeros panos e esteiras – o chefe Tuiavii centra-se nas ambiguidades e contradições do Papalagui. Refere que o Papalagui cobre as partes do corpo, exceto as mãos, o rosto e o pescoço, no entanto gosta de observar as mulheres, quase sem roupa, nas revistas e na televisão.

Das arcas de pedra, das gretas de pedra, das ilhas de pedra e do que entre elas há. As arcas de pedra são as cabanas ou as casas ou os apartamentos, as gretas de pedra são os prédios, as ilhas de pedra são as cidades e as gretas entre elas são as ruas. Neste capítulo, o chefe Tuiavii estranha o facto de um Papalagui possuir uma cabana ou uma casa ou um apartamento de grande dimensão, onde é possível viverem muitas pessoas, no entanto, é incapaz de receber um hóspede que não tenha dinheiro. Estranha, igualmente, que viva dentro desta cabana ou desta casa ou deste apartamento e não conheça sequer o vizinho mais próximo.

No capítulo – Do metal redondo e do papel forte – o chefe Tuiavii espanta-se com o fascínio que o Papalagui tem por dinheiro e como coloca este “metal” e este “papel” acima de todas as coisas. Eis um excerto: «Escutai-me bem, meus avisados irmãos, crêde no que vos digo, e considerai-vos felizes por ignorardes os males e as angústias do homem branco. Como todos vós sois testemunhas, o missionário proclama que Deus é amor e que um bom cristão deve ter sempre a imagem do amor presente no seu espírito. É a justificação invocada pelo Papalagui para dirigir a sua prece ao grande Deus. Mas o missionário mentiu-nos, e enganou-nos; o Papalagui corrompeu-o, de modo que ele nos engana usando as palavras do Grande Espírito. A verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que ele chama dinheiro.»

As muitas coisas tornam o Papalagui mais pobre. Neste capítulo, o chefe Tuiavii comenta que o Papalagui tem inúmeros objetos, mas não necessita da maioria deles.

No capítulo – o Papalagui nunca tem tempo – o chefe Tuiavii fica impressionado com a invenção de uma máquina que conta o tempo, isto é, com o relógio. O Papalagui vive o drama da passagem do tempo e do controlo do tempo, de modo que está sempre a reclamar que não tem tempo.

O Papalagui tornou Deus mais pobre. Neste capítulo, o chefe Tuiavii não consegue entender como o Papalagui substitui Deus pelas coisas diárias. Entre outras situações, não compreende porque razão um Papalagui considera que é dono de uma palmeira simplesmente porque ela nasceu em frente à sua cabana ou em frente à sua casa: «Quando um homem diz: «a minha cabeça é minha e de mais ninguém!» tem razão, tem muita razão, e contra isso ninguém terá o que objectar. Aquele a quem uma mão pertence, será quem mais direitos tem sobre ela. Até aqui estou de acordo com o Papalagui. Mas ele também diz: «A palmeira é minha!», só porque ela cresce, por acaso, diante da sua cabana.»

No capítulo – O Grande Espírito pode mais do que a máquina – o chefe de Tuiavii refere como o Papalagui inventou máquinas, mas não entende porque razão a maior parte das máquinas são usadas contra o próprio homem.

Das profissões do Papalagui e da confusão que daí resulta. Neste capítulo o chefe de Tuiavii diz não compreender como os homens têm uma profissão e fazem um tipo de tarefa a vida inteira. Refere que existem muitas profissões. Conta que o Papalagui da cidade é inimigo do Papalagui do campo, porque o do campo trabalha para o da cidade. Elucida que para o Papalagui está tudo muito bem como está.

Do lugar onde se simula a vida e dos muitos papéis. Neste capítulo o chefe de Tuiavii descreve o cinema como o lugar onde se simula a vida.

A grave doença de estar sempre a pensar. O Papalagui está sempre a pensar, passa a vida a pensar e não toma atenção às coisas de que mais precisa. Pensa tanto que o ato de pensar se tornou um hábito, uma necessidade, e até mesmo uma exigência. Vê-se obrigado a pensar continuamente. Enquanto pensa sobre o sol, passa a vida escondido dele. Quando o sol brilha, o Papalagui pensa: «Que belo sol que está agora!» E continua a pensar, sempre a pensar: «Mas que belo sol!» Ora, quando o sol brilha, vale mais não pensar em nada, estender e aquecer o corpo ao sol.

O Papalagui quer arrastar-nos para as suas trevas. O chefe Tuiavii termina com uma consideração sobre como os missionários ludibriavam os samoanos, uma vez que anunciavam um mundo que os próprios tinham largado: «Nem ele próprio, sequer, reconhece a contradição que está patente entre as suas palavras e os seus atos; mas nós, sim, reconhecemo-la pela sua capacidade em pronunciar a palavra de Deus do fundo do coração».

Erich Scheurmann, através dos pensamentos e críticas do chefe Tuiavii, consegue fazer uma análise psicológica em torno da própria sociedade. Este livro permite fazer uma correlação entre a vida indígena e a vida das pessoas europeias, mediante as perspetivas interculturais apresentadas em cada capítulo do livro. Este choque cultural é, de facto, importante para uma autoanálise sobre costumes e crenças dos próprios seres humanos. O mais surpreendente é que tudo o que foi escrito neste livro, em 1920, permanece atual, desde as considerações sobre a amizade, o pensamento, o cinema, o vestuário, a habitação, o tempo, o dinheiro, a religião, o autoconhecimento ou a racionalidade.

Este livro é uma obra de arte esplêndida e valiosa, tocante e inesquecível, pelo modo como, com uma simplicidade e clareza que já perdemos, um indivíduo ligado à natureza nos vê a nós e à nossa cultura e, através dos seus olhos, descobrimos a nossa própria imagem.

O Papalagui é, sem dúvida, um livro original e merece ser lido com o espírito aberto. Está disponível para empréstimo na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes.

Sónia Lourenço

Coordenadora do Serviço de Bibliotecas de Abrantes / Biblioteca Municipal António Botto

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