De estofos a cogulas. O desafio da reconversão. Foto: DR

Há 28 anos que a empresa Solfaestofo, em Cernache do Bonjardim, no concelho de Sertã, se dedica ao fabrico e reparação de estofos. Mas quando surgiu a pandemia de covid-19 e com as encomendas paradas, a empresa aproveitou a oportunidade e adaptou uma parte da sua unidade de confeção para produzir cogulas de proteção. A maior parte destina-se a oferecer às equipas de unidades de saúde que lidam com a pandemia da covid-19.

Em entrevista ao mediotejo.net Marco Barruncho, Project Manager da Solfaestofo, explica como surgiu a ideia e o que representou esta mudança de produção na empresa.

MT – Como surgiu a ideia de produzirem cogulas?

Surgiu após falar com alguns amigos a trabalhar diretamente com doentes covid-19. Percebemos que era uma necessidade e fomos ver o que já havia. Encontramos o projeto Portugal COnVIDa Todos e seguimos o modelo que já estavam a implementar. Conhecíamos os materiais usados e com o nosso know how, adaptando parte da nossa área de confeção rapidamente conseguimos iniciar a produção das referidas cogulas e começar a distribuir.

– A quem se destinam as cogulas? O objetivo é oferecer ou comercializar?

As cogulas produzidas até agora foram todas para doar. A maior parte com material e mão de obra nossa mas também ajudamos a cortar para outras equipas do projeto Portugal Convida Todos confecionarem. Fizemos chegar cogulas a diversos setores de profissionais de saúde que combatem na linha da frente com o vírus, mas também para outras entidades que lidam com população de risco e que estão privadas destes materiais, como lares, bombeiros, etc. Claramente ninguém estava preparado para esta realidade, portanto houve uma grande falta destes materiais essenciais em vários locais.

A empresa localiza-se na Zona Industrial de Cernache do Bonjardim. Foto: DR

– Até agora produziram quantas cogulas?

Neste momento temos produzidas e entregues cerca de 3 mil cogulas, e colaboramos no processo de corte de mais cerca de 1500 onde o tecido foi comprado por doadores do projeto Portugal Convida Todos.

– O que foi necessário para que a fábrica se adaptasse à produção de
cogulas?

Em primeiro lugar tivemos que comprar a matéria prima adequada e certificada, que apesar de conhecermos não usamos com regularidade. Sendo estes materiais diferentes dos que normalmente usamos, fizemos alguns ajustes nas máquinas de corte e costura para garantir a eficácia de cada uma destas fases. Dividimos a nossa zona de confeção para garantir as condições de higiene e preservação do material  manuseado, mas os processos inerentes a esta nova produção já fazem parte do nosso know how produtivo e nesses houve poucas mudanças.

– A ideia é manter essa produção no futuro ou foi apenas para esta fase?

Nesta fase mantemos apenas a produção para distribuição gratuita, mas não temos recursos ilimitados e o mercado está a pedir que continuemos a produzir, principalmente áreas que estão a retomar como a medicina dentária, por isso ponderamos continuar a produção para comercializar.

– Qual tem sido a recetividade das entidades?

Temos tido muitos pedidos e só lamentamos não conseguir entregar maiores quantidades às pessoas com quem temos contacto.

– Desta forma conseguem manter os 20 postos de trabalho?

Para já sim. Felizmente, até ao momento apenas tivemos de encerrar por um período de curta duração, pois temos encomendas ativas. Contudo, como a Solfaestofo está muito ligada ao setor do turismo tanto pelos transportes como pela hotelaria, um dos mais afetados com a pandemia, tememos que no segundo semestre possam existir maiores dificuldades.

– Mas acreditam na viabilidade da empresa pós-covid?

Sem dúvida. Ao longo dos nossos 28 anos enfrentámos momentos muito difíceis, para os quais conseguimos sempre uma solução. Acreditamos que com o DNA desta empresa, dos empreendedores que a representam e de toda a nossa equipa produtiva, conseguiremos ser fortes e capazes de contornar os obstáculos do pós-covid.

– Estão portanto, confiantes, no futuro?
Já demonstrámos que somos uma empresa capaz de se reinventar e adaptar a novas fases e a novos mercados. Neste momento, já estamos a dar resposta a algumas solicitações representativas deste “novo mercado” para a Solfaestofo, com uma linha de produção de máscaras de proteção comunitárias laváveis, com tecido certificado pelo CITEVE, 100% algodão, sabendo de antemão que a longevidade do impacto desta pandemia que nos assola acarretará oportunidades produtivas diferentes das habituais, mas para as quais teremos de estar preparados.

Para além disso, ainda que o retorno possa estar um pouco adiado, mantemos o empenho no investimento que fizemos nos últimos dois anos na exportação e continuamos muito entusiasmados com as perspetivas de outros mercados europeus.

A Solfaestofo em números

Fundada em 1992, a Solfaestofo é uma empresa que se dedica à área dos estofos e decoração. “Regemo-nos por uma política de qualidade com o objetivo de um crescimento sustentado no setor de Estofos e Decoração”, assegura Marco Barruncho, Project Manager da empresa, exemplificando com a certificação pela norma NP EN ISO 9001.

A sua especialidade é a manutenção, renovação ou reparação de bancos de veículos, essencialmente transportes públicos, autocarros (turismo e urbanos) e comboios. Situada na Zona Industrial de Cernache do Bonjardim, a empresa desenvolve o seu trabalho também na reparação e remodelação de interiores de todo o tipo de veículos ligeiros, aeronaves, embarcações, bem como para o setor da hotelaria, onde, por exemplo, renovam e estofam auditórios e salas de espetáculo.

O vasto leque de clientes de referência que foram fidelizando ao longo dos anos pela qualidade dos seus serviços e pela sua capacidade de resposta contribuem para a manutenção dos 20 postos de trabalho.

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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1 Comentário

  1. Conseguimos ficar sem perceber o que são cogulos. Jornalismo não é só mandar as perguntar e esperar respostas. É insistir que as mesmas sejam respondidas. Pelo menos faziam vocês próprios uma descrição do que são cógulos. Muita palha e conversa fiada e não falam do que interessa.

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